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Muito além do boné do MST


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Ao colocar na cabeça o boné do MST e bater bola com suas lideranças, Lula provocou arrepios nos conservadores deste País. A imagem do presidente entre sorrisos e abraços como num encontro entre amigos é em tudo contrastante com outras mostradas nos últimos dias, de saques e violências no campo. Na condição de assistente especial de Lula, Frei Betto resumiu numa frase o sentimento do Palácio do Planalto: “Quem está estranhando esquece que os caras são, para o presidente, companheiros, porque incorporam uma causa histórica nesse País”.

É preciso cuidado com esse projeto verdadeiramente histórico, o Movimento dos Sem-Terra, que ajudou a eleger Lula. Pela Constituição, os delitos contra pessoas e patrimônio, como os saques que vêm ocorrendo, são de responsabilidade da Justiça estadual. Isso quer dizer que o governo federal tem o bônus da reforma agrária e que o ônus da repressão fica nas mãos dos governadores que não se mexem desde o chamado “massacre de Eldorado de Carajás”, onde vários sem-terra morreram. “O caminho está livre e desobstruído para o enfrentamento privado, que é o caminho da barbárie, a negação do Estado”, adverte o deputado Raul Jungmann, ex-ministro da Reforma Agrária de FHC.

Essa preocupação existe embora o governo tenha deixado claro que vai cumprir a lei na repressão, tanto contra os sem-terra quanto contra os ruralistas que estão bem armados. Por outro lado, é criativa a idéia da reviver Canudos com um acampamento monstro que já conta com mais de 5 mil habitantes no Pontal do Paranapanema. O desalento das massas obrigadas a uma peregrinação sem rumo, pela transformação profunda da sociedade com a Abolição, possibilitou a Antonio Conselheiro a utopia de fraternidade na beira do Vaza-Barris. Hoje, as razões históricas são as mesmas com o enxugamento dos postos de trabalho possibilitado pelo avanço tecnológico e toda uma estratégia diabólica da modernidade neoliberal. Talvez não estejamos entendendo a mensagem mais profunda dos homens e mulheres que integram o movimento dos sem-terra. Observa Santayana com muita perspicácia que eles não buscam nas glebas ocupadas a conquista de uma propriedade. Para quê? O agronegócio só é possível hoje mediante culturas de extensão. Ninguém sobrevive com uma nesga de terra. Na Europa, pequenos lavradores conservam suas terras porque ganham para não plantar. Subsídios governamentais ultrapassam US$ 130 bilhões na União Européia e quase outro tanto nos Estados Unidos. O Brasil não teria dinheiro para isso. O que busca o MST é a vital solidariedade dos pobres, capaz de lhes assegurar a dignidade a quem têm direito como seres humanos.

Como os trabalhadores sem-terra, os desempregados de colarinho branco e os que ainda mantêm emprego à custa de duras concessões começam a perceber que, no mundo dos ricos, a classe média passa a ser também excedente. Um dia, ao perceber que as portas do paraíso se encontram para ela fechadas, a classe média terá que buscar a solidariedade dos pobres, assim como milhares de seus integrantes já estão sendo empurrados para a periferia.

Foram valores como esses, de recuperação do direito de viver, que, de forma instintiva e confusa, os resistentes da sociedade igualitária de Canudos defenderam até os últimos a morrer. “Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados”, conforme relato duro e indignado de Euclydes da Cunha, correspondente de guerra de O Estado de S. Paulo.

Não queremos o mesmo fim para os arraiais que hoje estão em todos os Estados, seja em Bauru ou a apenas 40 quilômetros do Palácio do Planalto. Seria mais uma tragédia a manchar a história pátria, esse movimento terminar em sangue. A República perdeu sua oportunidade de ser instrumento de justiça social quando no seu nascedouro, empurrada pelas reivindicações sociais acabou unificando o feudalismo rural com os militares conservadores e a Igreja reacionária ao pensamento positivista. Quase 115 anos depois da sua proclamação a República merece outra chance de ser o caminho da verdadeira democracia, guiada pelo povo organizado. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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