Tribuna do Leitor

Reforma agrária. Por quê?


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Há muito tempo li algures, uma frase que dizia mais ou menos assim: “Se os campos florescerem, as cidades crescerão. Se os campos forem desocupados, as cidades perecerão. Se os campos reflorescerem as cidades ressurgirão." Pode ser que as palavras tenham sido outras, mas a mensagem ficou gravada. Lendo notícia no JC de 30/6/03 (página 18) e assistindo a telejornal na TV Cultura, deparamos com entrevistas concedidas por líderes do Movimento dos Sem Terra (MST), que informavam a existência de cerca de 4.000 famílias, alojadas às margens de rodovia, organizadas para a ocupação de terras ditas improdutivas, no Pontal do Paranapanema. Sem adentrar ao mérito de que as terras pretendidas sejam ou não exploradas ou de que seus atuais detentores tenham ou não titularidade dominial, parece-nos oportuno que a sociedade como um todo deveria dar melhor atenção à pretensão manifestada por todas essas imensas coletividades acampadas pelo território nacional. Se realmente for sincera a intenção manifestada pelos “invasores” (como estão sendo tratados), afirmando que tão somente querem um lugar para morar, plantar e colher, por que não lhes atribuir credibilidade?

Tive a oportunidade de há muitos anos atrás, residir em regiões em que predominava o latifúndio. À medida que o tempo passava, os grandes feudos se diluíam gradativamente, dando ensejo a que inúmeras glebas se transformassem em pequenas propriedades, as quais, iniciadas pelas lavouras de subsistência familiar, logo se transformaram em produtoras eficientes, formando invejáveis centros de produção agrícola. Inicialmente arrendatário, os conjuntos familiares transformaram-se em pequenos proprietários. Assisti também à formação de cooperativas que bem administradas proporcionavam a distribuição do produto aos grandes centros consumidores.

Evidente que para o custeio inicial houve a participação ativa dos bancos oficiais, tanto em nível federal, quanto estadual. Crédito acessível e juros baixos, com prazos adequados desde o amanho das terras até as colheitas e comercialização. Imprevistos sempre houveram: secas, geadas, granizos; porém, sempre se superou a adversidade. Dava gosto de ver o caboclo que antes andava a pé, descalço e maltrapilho, apresentar-se depois sobre um belo cavalo, botas longas e bem arrumado, tocando com a mão na aba larga de seu chapéu novo para cumprimentar seus conhecidos. Depois vieram os jeeps, camionetes, tratores, etc. Tudo financiado. E pago!

Realmente as cidades cresceram, indústrias foram surgindo, o comércio ampliando e se difundindo. Não faltavam empregos e o melhor: não faltava o alimento, bom e barato. Ah, os bancos não tinham prejuízos e o governo arrecadava seus impostos sem sonegação. E tudo isso num convívio pacífico com os grandes produtores rurais! Naquele tempo não existia ainda o INSS nem IPMF. Os institutos eram realmente de previdência. O atendimento médico era feito em postos de saúde e de puericultura, as internações eram feitas em santas casas ou outros hospitais. Ninguém morria por falta de atendimento. As escolas públicas davam condição de respeitabilidade e dignidade aos professores e os alunos realmente tinham ensino de qualidade. E tudo isso com verba de um selo federal chamado “taxa de educação e saúde”. Alguém se lembra? Era tão barato que ninguém sonegava e a verba era realmente destinada às escolas e à saúde, públicas. Mas isto é assunto para outra ocasião. Voltemos ao cerne da questão. Num momento de crise, em que milhões de brasileiros clamam e reclamam por oportunidades de trabalho lícito e honesto, não nos parece um retrocesso se voltarmos à prática da mais elementar forma de subsistência: plantar para colher. Colher para comer e vender o bom e barato da produção. E mais: sentir-se valorizado e com dignidade, respeito e amor próprio restabelecido. Espaço existe de sobra. Uma reforma agrária bem planejada e executada pode dar bons frutos para todos. É nossa modesta opinião. E a sua? (João José de Lima - Jota - RG 3.776.025)

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