Em 14 de julho de 1789, o mundo assistiu à Queda da Bastilha, numa demonstração forte simbólica do fim do Absolutismo na França, em busca da Liberdade e, conseqüentemente, através da busca pessoal da felicidade e melhores condições de vida. Em novembro de 1989, o mundo viu, pela TV, as emocionantes cenas dos martelos, paus, pedras e até punhos, pondo abaixo uma das maiores vergonhas que a humanidade, passivamente, já admitiu: o muro de Berlim. A queda do muro marcou o início da queda da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, pondo fim ao totalitarismo que quase atravessou um século, e que dizimou dezenas de milhões de pessoas, mais do que nas guerras do mesmo período.
Estamos em 2003 e o que estamos esperando é a “queda da ficha”. Esta, ao contrário de torres e muros, está dentro de milhões de brasileiros, desde o “Zé dos Anzóis” até os poucos mais bem posicionados na pirâmide social tupiniquim. A “queda da ficha” significa o reconhecimento, por parte dos brasileiros e, quiçá, por parte dos governos, de que o gigantesco aparato estatal é que está matando a Nação, progressivamente. Os ataques mortais, provenientes do alto da bastilha brasiliense, atingem o nível de atividade econômica, a produção intelectual, a atividade política, as instituições e, por fim, a sociedade, a família e o indivíduo, muitos destes sendo vencidos pela imoralidade e pela nova ética do estado paralelo, dominado pela lei da vantagem.
Este aparato, construído em sólida torre babilônica repleta de atribuições e cercada do muro dos corporativismos, impõe-se cada vez mais sobre a plebe, ou seja, o povo brasileiro. A “queda da ficha” representará, em algum momento de nossa história futura, a compreensão da subversão dos valores organizacionais institucionais, já que, o Estado, na forma como existe no Brasil, esta torre babilônica defendida pelos que dele se beneficiam, serve-se da população que o sustenta, com 40% do que produz, quando, sabidamente, deveria ser exatamente o contrário, o Estado servir à população. Quanto será necessário ainda para que a ficha caia? Quanto será necessário ainda para que se perceba que a bastilha brasiliense, presente e espelhada constitucionalmente em cada canto desse mundão de brasis, extorquiu as autonomias que agora negocia em troca de favores políticos com os governadores, os quais, para garantir fechamentos orçamentários, dentro da Lei de Responsabilidade Fiscal, obtiveram permissão para retirar subvenções de seus próprios orçamentos, para a saúde e educação?
Quanto será necessário para que se compreenda que a solução dos problemas locais se encontra nos próprios locais, desde que, tenham liberdade para auto-gestão, auto-geração e auto-responsabilidade, sem que se tenha que enviar o produto de seu trabalho para a bastilha para aguardar o retorno das migalhas? Quanto será necessário para que se compreenda que quanto mais centralizado o poder, mais vulnerável o mesmo fica às forças exógenas do poder financeiro e político? Quando ocorrer a “queda da ficha”, com essas e outras constatações clarificadas na mente de cada brasileiro, a queda da bastilha e do muro tupiniquim que veda nossas liberdades, nossas autonomias, nosso desenvolvimento, nossa visão de futuro, nossas escolhas locais e até pessoais, se tornará inexorável. Uma nova história começará no Brasil.
A “queda da ficha” já vem ocorrendo com muitos brasileiros que perceberam a causa primária dos problemas nacionais, o centralismo crônico dos poderes políticos, administrativo, judiciário, legislativo, tributário e financeiro na esfera federal, não mais se deixando levar pelo papo dos pretores do centenário politburo tupiniquim. Mas muitos ainda faltam. Milhões. A bastilha caiu. O muro caiu. A ficha também cairá. (O autor, Thomas Korontai, é consultor em propriedade industrial, empresário e presidente nacional do Partido Federalista - www.federalista.org.br)