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Reflexões na hora amarga


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À medida em que passam os dias, mais e mais claramente se vai apresentando o quadro real da situação do mundo no qual uma superpotência que sempre se apresentou e, até certo ponto, foi tida como campeã da liberdade e da justiça internacional, vai deixando cair a máscara atrás da qual se escondia.

Após a injustificável agressão ao Iraque, depois de debilitá-lo por dez anos de sanções econômicas e de espioná-lo a pretexto de procurar supostas armas de destruição em massa, oficialmente declara o falso campeão da justiça, a sua esdrúxula e desabusada doutrina da “guerra preventiva”, segundo a qual se arroga o direito de intervir preventivamente, em força, em qualquer país do mundo em que, a seu juízo unilateral, existam ameaças à paz mundial. Hoje, não há, praticamente, quem ignore onde reside o perigo e mora aquela ameaça: precisamente em Washington que, manifestamente, montado no formidável arsenal de armas de destruição em massa, que considera seu monopólio exclusivo, coloca-se ostensiva e declaradamente acima das leis do convívio internacional, civilizado, pacífico e justo. Agora mesmo, quando se cuida de instalar na Europa um Tribunal Internacional para julgar crimes de guerra e, a pretexto delas, pisotear os direitos humanos, o antigo paladino da liberdade e da Justiça se insurge contra o projeto e afirma que seus soldados, seus instrumentos de ação, não serão submetidos a nenhum Tribunal Internacional. E passando das palavras à ação, suspendeu o que chama de ajuda militar aos 35 países que aderiram ao projeto, inclusive o Brasil. E dizemos que suspendeu o que chamam de auxílio militar, por constituir-se este no despejo de sucata de sua indústria bélica, já para eles inútil pela obsolescência.

Por tudo isso, sentindo-se desmascarado pela própria prepotência, vê-se forçado, o grupelho que controla o governo dos EUA, bem como de muitos outros países, a partir para o tudo ou nada, enquanto lhe resta ainda a possibilidade de acionar a máquina infernal de que dispõe, com alguma probabilidade de êxito. Sim; porque não é a nação, o povo americano, como não é o inglês, ou qualquer outro povo, o verdadeiro responsável pela prepotência, a exploração e a injustiça praticados a pretexto da defesa da liberdade, de fato deliberadamente confundida com licenciosidade; e da democracia que, sobre tal fundamento, não passa de um simulacro prostituído do verdadeiro ideal democrático. Demonstrou-o, fartamente, a agressão ao Iraque, contra a qual protestaram todos os povos, não por se tratar do Iraque, mas porque os povos não aceitam mais a guerra como instrumento válido de ação. Os povos foram contrários a elas: a favor dela, permaneceram muitos governos, justamente os dominados pelos interesses espúrios que os constituíram tornando patente até que ponto eles eram e são democráticos...

Mas tudo tem um preço e todos os abusos têm um limite. Por isso, quando dizíamos que a guerra viria, fosse qual fosse a opinião da ONU, e que os agressores a perderiam, aparentemente, sobretudo quanto à segunda afirmação, parecíamos estar laborando em erro. Observe, porém, o leitor que nos honra com a leitura destas “Reflexões” que de fato uma máscara caiu e que, terminado o massacre, continua a resistência que vai em um crescendo, longe de estar diminuindo; razão pela qual a última pesquisa do Instituto Gallup assinalou que já agora, apenas 48% dos americanos concordam em que valeu a pena ter sido perpetrado o que foi perpetrado. Tem, ou não, o grupelho, motivo para estar em desespero e aumentar a truculência? (O autor, Jorge Boaventura, é colaborador do JC)

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