Pesca & Lazer

História de Pescador: Pescaria na escuridão


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“Eu estava meditando meus fracassos e conquistas, o meu passado distante comecei passar em revistas. Lembrei do bairro dos Carneiros e recordei da escola mista; recordei do tio Tiãozinho, tio Zé e Bastião Batista e o que fizemos um certo dia no Ribeirão Boa Vista.

Quaresma estava no fim e já na Semana Santa eu vi os três combinando buscar mistura pra janta lá perto da cachoeira, lá no rebouço das antas, naquela mata fechada onde a saracura canta. Tio Bastião acendeu o cigarro e disposto a amassar barro saiu limpando a garganta.

Quirela de milho socado e uma lata de minhoca com anzol de lambari, de traíra e jurupoca e com um “brusão” de couro pra proteger das muriçocas e os quatro muito animados fomos descendo a barroca, naquele passo afamado, que dava bagre criado atrás da moita de taboca.

Sentamos na beira do rio e começamos a pescar; um saco de algodãozinho servia de samburá, na boca tinha alça para poder carregar, a noite estava escura, pouco dava para enxergar; o saco com quirela e os peixes numa vara pendurei pra descansar.

E com o cair da noite, escureceu um pouco mais, eu escutei um barulho numa moita de ananais; levantei e saí correndo e o barulho veio atrás, meu tio gritou assustado dizendo calma rapaz, correndo beira do rio e o bicho me perseguiu, é lobisomem ou “satanais”.

Peguei o saco de peixe para não ficar perdido e o bicho correndo atrás, de vez em quando um gemido, eu gritei por todos os santos já com os braços feridos, achei que o anjo da guarda já tinha me esquecido quando eu cheguei na estrada já sem peixe sem mais nada o bicho tinha sumido.

Todo mundo se assustou com os gritos do Miguezinho, meus tios chegaram correndo, assustou até um vizinho, um estava quase desmaiado ali na beira do caminho, com a roupa toda rasgada de passar sobre o espinho, disse o vizinho Nereu, “já sei o que aconteceu, que assustou o coitadinho”.

Eu estava estatelado numa moita de marcela, Tiãozinho chegou correndo e lumiou com uma vela, tremendo igual a vara verde com o coração na guela, tio Zé disse não é nada é só uma purga magrela, eu vi de perto do rio ali na beira do trio, com o borná de crila.

Aí então percebi o que foi que aconteceu, a porca estava com fome e a crila percebeu como eu peguei o saco atrás de mim, ela correu quase que eu morro de susto, com a porca do Nereu. Mas o que foi bem pió, foi o borná de lobo que a danada comeu.” (Antonio Miguel Carneiro é contador de histórias e autor do “causo” Pescaria na Sexta-Feira Santa, publicada em 12 de junho deste ano.)

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