A relação dos médicos com as operadoras de planos de saúde vem sendo abalada devido às interferências e pressões para que os profissionais requisitem menos exames e procedimentos para seus pacientes. “Esta situação interfere no atendimento dos pacientes e na manutenção do livre exercício da medicina”, afirma José Henrique de Oliveira Godoy, diretor regional da Associação Paulista de Medicina (APM), entidade que possui cerca de 400 associados em Bauru e mais de 26 mil em todo o Estado.
Este tema, assim como a proposição de aumento de salário e de honorários para os médicos, foram discutidos no Dia Estadual da Mobilização, realizado na semana passada em São Paulo por diversas associações e entidades ligadas à área médica.
Sobre as reivindicações de melhores salários, Godoy explica que, na implantação do Plano Real, em 1994, os contratos médicos eram regulados por coeficientes de honorários, os valores para cada tipo de procedimento, que na época eram de R$ 0,40. Ao invés de sofrer reajuste, os coeficientes foram reduzidos pelas operadoras de planos de saúde, chegando hoje, em alguns casos, a R$ 0,17.
“Como trabalhamos individualmente, ficamos à mercê dos grandes compradores de serviços, que pagam o que querem”, afirma. A luta dos médicos, segundo Godoy, é pelo cumprimento do piso salarial de R$ 2.600,00 por 20 horas semanais.
Em entrevista ao Jornal da Cidade, Godoy fala dos problemas que os médicos enfrentam com os planos de saúde, da relação médico-paciente e das tendências de mercado para os profissionais da medicina. Confira a seguir alguns trechos da entrevista:
Jornal da Cidade - Quais os problemas enfrentados pelos médicos de Bauru atualmente? José Henrique de Oliveira Godoy - A gente vê uma chegada à cidade de medicinas de grupo, que são uma preocupação constante para nós. São empresas de assistência médica, que fazem a intermediação do trabalho médico, o que é condenado pelo código de ética médica. Da relação médico-paciente, devem usufruir apenas o médico, com a sua remuneração, e o paciente, com as suas necessidades de saúde atendidas. Até uns dois anos atrás, só existia a cooperativa de trabalho médico, na qual não há intermediação. A presença de patrões é um aspecto que fere o código de ética médica, e nós temos que aprender a conviver com isso. Outro problema é o número muito grande de profissionais em especialidades básicas, como pediatria, ginecologia, obstetrícia e clínica médica. Isso torna os compradores de serviços mais tranqüilos em relação ao oferecimento de salário, que passam a ser desestimulantes.
JC - Então, por que a prefeitura afirma que existe uma dificuldade em conseguir pediatras para os postos de saúde? Godoy - Os pediatras confessam um certo grau de exaustão, estão cansados. É uma especialidade fascinante, porque é muito abrangente e intelectualmente instigante. Porém, é fisicamente cansativa. Um médico que trabalha num pronto-socorro infantil atende às vezes 50, 100 crianças sem parar. E não atende apenas uma criança, é uma criança com uma família. E o médico é um ser humano, que ao final de uma carga de trabalho extenuante como essa, fica fatigado. Os médicos que têm alguma experiência, depois de certo tempo, cansam de trabalhar no serviço público, o que é natural. Já o estudante sai da faculdade conhecendo o mercado de trabalho, e sabe que existem muitos profissionais, por exemplo, na área pediátrica, e que os salários são desestimulantes. Então, o jovem estudante de medicina procura se direcionar para especialidades com salário melhor, como tomografia computadorizada, ressonância magnética e neurocirurgia, nas quais também não há muito espaço. Por isso, existe a dificuldade em contratar pediatras.
JC - Muitos pacientes reclamam do distanciamento que alguns médicos estabelecem, às vezes sem ter qualquer contato físico durante uma consulta. Isso fere a ética médica? Godoy - O profissional que se comporta dessa maneira não tem como ser defendido. Felizmente, eles são uma minoria. E infelizmente, a nossa estrutura de contratação no serviço público não permite a adequada correção desse problema. É uma cultura de abandono na maneira de tratar o usuário, mas o médico não pode e não deve se comportar desta forma. Nós temos feito todo o possível no âmbito das associações médicas e conselhos de medicina para corrigir esses comportamentos. Há alguns anos, os conselhos têm implantado comissões de ética médica em todos os hospitais e grandes ambulatórios. É para essas comissões que devem ser encaminhadas as queixas. Elas têm a prerrogativa de investigar o caso e propor uma correção ou uma punição.
JC - O apoio dos governos federal e estadual ao programa Saúde da Família vem gerando um aumento no número de médicos generalistas? É uma tendência para o futuro? Godoy - Não diria que há uma tendência na formação de médicos generalistas, mas o estímulo que o governo tem dado ao programa Saúde da Família parece trazer uma luz no fim do túnel. Esperamos que um número grande de profissionais comece a se interessar e a se dedicar a esse tipo de atividade. Não podemos perder de vista que o generalista tem que trabalhar em conjunto com a rede estruturada de serviços públicos, de tal forma que o paciente nunca deixe de ter seu problema resolvido. Diferente dos médicos de família dos anos 30 e 40, o médico de hoje tem formação suficiente para orientar e diagnosticar o problema do paciente até a solução final.
JC - Qual é a porcentagem dos médicos que atendem pelo SUS, pelos planos de saúde e em consultórios particulares? Godoy - De acordo com uma pesquisa do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado São Paulo), 62,1% dos serviços são privados e 37,9% são públicos. Agora, 30% dos médicos atendem exclusivamente por planos de saúde. Apenas 2% ou 3% atendem exclusivamente pacientes particulares, e 80% atendem uma mescla de SUS e planos de saúde.
JC - O desaparecimento do atendimento e dos médicos particulares é uma realidade? Godoy - A sociedade tem verificado isso. Em primeiro lugar, pela concentração de renda da qual o Brasil é vítima. O número de pacientes particulares está ficando escasso em virtude da baixa concentração de renda. O segundo aspecto é que a sofisticação tecnológica, a profissionalização e a hierarquização do atendimento médico têm encarecido a medicina. Vou dar um exemplo: um paciente de diabetes ficou internado em Bauru num hospital particular no mês passado. Teve despesas de R$ 60 mil durante um mês. Esta despesa não é de honorários médicos, que devem ser de aproximadamente R$ 800,00. O restante é com atendimento hospitalar: antibióticos caríssimos, drogas vasoativas, aparelhos, exames laboratoriais, enfim, uma série de procedimentos necessários para a manutenção da vida, até porque a tecnologia existe para ser usada. E isso torna muito cara a medicina.
JC - Com a grande quantidade de planos de saúde, a filiação dos médicos às cooperativas é uma tendência de mercado? Godoy - Sim. Não há sobrevivência para o médico sem que ele se filie aos convênios médicos ou a uma cooperativa médica.
JC - Muitos profissionais reclamam da interferência dos planos de saúde, que fazem pressão para reduzir os pedidos de exames e internações. Como trabalhar com esta interferência? Godoy - Se você for olhar como empresário, um paciente como esse que eu citei custa R$ 60 mil por mês. Existe uma pressão dos convênios, e particularmente das grandes operadoras, no sentido de que os médicos solicitem menos procedimentos, que utilizem menos os recursos tecnológicos, exames complicados. Mas esse comportamento é proibido pela Lei 9.656/98, que regula a relação da empresa com o usuário. Mas existe, sim, essa pressão por parte dos planos de saúde, no sentido de que os médicos reduzam os procedimentos. Isso prejudica a liberdade de atuação dos profissionais.
JC - Essa pulverização dos planos de saúde traz mais benefícios ou prejuízos para a sociedade? Godoy - Do ponto de vista do consumidor, parece ótimo. Mas uma coisa é você ter várias opções de molho de tomate quando pode comparar a marca X com a marca Y e escolher uma, trocar depois. Já quando você opta por um plano de saúde, é uma opção que pode significar a cura de uma doença. É muito importante que o consumidor seja alertado das limitações que cada plano impõe. Então, mesmo que o plano Y seja mais barato que o plano X, não se pode garantir que o atendimento seja igual.
JC - E como fazer uma boa escolha na hora de assinar o contrato com uma operadora de planos de saúde? Godoy - Deve-se procurar o Procon, pois os planos de saúde são os campeões de reclamações. Também pode-se procurar o Conselho de Medicina, as associações médicas e, principalmente, as sociedades especializadas. É importante saber se, com o plano escolhido, você será atendido por um médico filiado a uma sociedade especializada.