Antigamente, falar em cooperativas era referir-se a organizações do ramo agropecuário. Atualmente, essa visão mudou, já que o cooperativismo “urbano” está em alta. É o que afirma Marco Aurélio Fuchida, superintendente da Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo (Ocesp).
Entre os ramos que estão em crescimento, Fuchida destaca as cooperativas habitacionais, educacionais, de trabalho e crédito. “São uma área nova em que há espaço de crescimento”, afirma.
Confira a seguir trechos da entrevista concedida ao JC nos Bairros.
Jornal da Cidade - Está aumentando o número de cooperativas no Estado de São Paulo? Marco Aurélio Fuchida - Está aumentando o número de cooperativas. Isso tem ocorrido de uma maneira diferente, nos últimos dez anos - principalmente na década de 90. Houve uma mudança do cooperativismo, deixando um pouco aquele cooperativismo rural - que era o mais tradicional e mais conhecido - e surgindo um cooperativismo mais urbano. É uma linha mais de cooperativa de trabalho, habitacionais, de crédito mútuo e educacionais. Nesses ramos, há um crescimento maior do número de cooperativas. Embora o cooperativismo agropecuário continue ainda muito forte. Isso tem ocorrido porque as cooperativas são tidas como modelo de organização social. A atividade econômica é base para essas organizações. E também é uma forma para o desenvolvimento da sociedade. O cooperativismo é um instrumento muito interessante porque organiza a sociedade de maneira democrática e participativa em torno de um empreendimento econômico.
JC - As cooperativas do ramo agropecuário não têm crescido? Fuchida - Elas até se desenvolvem, mas não em números. Elas se desenvolvem mais em participação - em número de cooperados e em termos de participação econômica, crescimento da produção agrícola.
JC - Por que alguns ramos se desenvolvem mais? Fuchida - Os ramos educacional, habitacional, de trabalho e crédito são uma área nova em que há espaço de crescimento. A sociedade sente a necessidade de se organizar e conhecer trabalhos mais associativos - e aí você tem o modelo cooperativista, que acaba incluindo a questão da organização social, atrelando à atividade econômica. E também o próprio conhecimento do cooperativismo. Hoje há um conhecimento maior no meio urbano do cooperativismo e das oportunidades que ele tem de desenvolvimento. Isso estava muito vinculado à área agrícola. Hoje, já há um contato maior com o cooperativismo. Há uma projeção maior na mídia. Os próprios governos têm colocado dentro de políticas públicas a utilização do modelo cooperativista. Isso faz com que haja um interesse maior por parte da sociedade.
JC - No Estado de São Paulo há alguma região que se destaca pelo surgimento de cooperativas? Fuchida - No caso dessas cooperativas ligadas a atividades urbanas, há uma concentração maior nos centros urbanos. Quando eu falo centros, há algumas regiões - primeiro, a Grande São Paulo. Depois tem a região de Campinas, Ribeirão Preto. Bauru também tem uma concentração. Fora a Capital, os centros regionais têm uma tendência a ter número significativo de cooperativas.
JC - Na sua opinião, a tendência é de que o número de cooperativas aumente no Estado? Fuchida - Eu acredito que elas aumentem sim. Há uma participação maior no cooperativismo. Com certeza, vai haver aumento das cooperativas. As próprias políticas públicas têm se pautado para o apoio ao cooperativismo.
JC - Quais são as vantagens do cooperativismo? Fuchida - A grande vantagem é o modelo democrático e participativo, no qual as pessoas passam a ser sócias de um empreendimento econômico, mas que tem princípios e valores sociais. Isso faz com que você tenha auto-gestão participativa, em que todos têm igualdade de voto e condições iguais, independente do capital com o qual participem. É um modelo que se adapta muito bem a uma sociedade democrática. A vantagem é poder ajudar uns aos outros e conseguir uma participação melhor no mercado. Além disso, o principal não é o capital. O principal são as pessoas que compõem a cooperativa.
JC - É difícil manter uma cooperativa em funcionamento? Fuchida - O processo de surgimento da cooperativa deve se dar a partir da base, ou seja, das pessoas. Não adianta um querer criar uma cooperativa e depois chamar mais pessoas. Quando há esse compromisso, há condições de ter mais sucesso. Além disso, é necessário um incessante trabalho na área de educação cooperativista. Por ser um segmento ainda desconhecido, precisa ter um investimento em educação cooperativista - preparar muito bem os sócios para eles participarem da cooperativa.