Ser

A sombra do ciúme e da inveja

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 7 min

O ciúme tem um conceito muito próximo da inveja, da cobiça e espírito de vingança, confundindo facilmente todos estes sentimentos. Entretanto, o ciúme costuma ser melhor aceito porque significa a tentativa de recuperação de algo legítimo que alguém tomou do outro. Já a inveja é um sentimento primário, descrito pela psicanalista Melanie Klein, em 1991, como o desejo invejoso de ser a fonte de perfeição. Bem antes disso, Freud localizou a inveja na evolução humana na descoberta das diferenças anatômicas. A partir daí, ela é tanto alimentada quanto reprimida nas relações familiares e nas relações entre o masculino e o feminino.

A presença da sombra do ciúme e da inveja nos relacionamentos humanos foi o tema da conferência apresentada pelas psicólogas Daniela Segalla Cardoso, Isabel Cristina Dalco e Simone Maira Bandeli, na semana passada, durante a 2.ª Jornada de Psicologia Junguiana de Bauru e Região e a 7.ª Mostra de Pesquisas do Curso de Técnicas Terapêuticas Junguianas.

A inveja, definida pelos dicionários como desgosto, ódio ou pesar da prosperidade ou alegria alheia, está presente em muitas situações do cotidiano, e também no ambiente competitivo e hostil do trabalho. Entretanto, as psicólogas apontam que ela é pouco assumida, e por muitas vezes inconfessável, e exemplificam com os passistas de uma escola de samba que, veladamente, se degladiam para aparecer.

“A inveja é uma característica humana, assim como a decepção, a nostalgia e a ambição. É um dos afetos que estão ligados a auto-estima e ao orgulho. Então, é algo muito natural, um elemento significativo na constituição emocional do ser humano. O invejoso é normalmente inseguro, supersensível, irritadiço, desconfiado, observador minucioso e investigador da vida alheia. Está sempre armado e alerta contra tudo e contra todos, finge superioridade quando, na realidade sente-se inferiorizado, sendo tal fato o provocador do ar sarcasmo e de ironia que o invejoso costuma manifestar. O comportamento descrito o leva a exaustão, porque necessita ocultar o seu precário estado de harmonia interior”, define a porta-voz do grupo Simone Bandeli.

A psicóloga aponta que a inveja só não é facilmente aceita porque, culturalmente, é tida como um sentimento ruim. A repressão desse sentimento negativo explica a elaboração inconsciente dos mecanismos capazes de dissimulá-la. “Colocam-se outras coisas no lugar, com o objetivo de negar sua existência.”

Na distinção entre o ciúme e a inveja, o primeiro é um sentimento que visa proteger uma relação valiosa. O desejo do ciumento é desfrutar o objeto do ciúme. Já o desejo do invejoso, ao contrário, é ver o fracasso do invejado. “A inveja é um sentimento de cólera que o sujeito experimenta quando percebe que o outro possui um objeto desejável. Quem tem inveja, deseja uma qualidade ou posse do outro, mas a inveja e o ciúme podem aparecer juntos: quando, por exemplo, desejamos a beleza física do suposto adversário”, acrescenta.

Dessa maneira, embora o ciúme simplesmente cobice a riqueza e a honra dos outros, a inveja é algo que se faz acompanhar de rancor. O invejoso, muitas vezes, não quer para ele o objeto invejado, mas sim quer que a outra pessoa não o tenha. Um exemplo simples e corriqueiro de inveja é ficar incomodado com o sucesso de um amigo.

Crendices

Segundo a visão folclórica relatada no trabalho das psicólogas bauruenses, o mau olhado está na própria constituição da palavra inveja. Em latim, “invidere” tem essa conotação e significa olhar de soslaio, com mau-olhado. Também denominada olho gordo, é um dos projetos que a igreja atribuiu ao demônio para “infectar com o mal” a quem olha. Certas pessoas teriam, nos olhos, o poder de fazer murchar as plantas, adoecer as pessoas, fazer com que os negócios dos outros não dêem certo, é o olhar de “seca-pimenta”. Para combatê-lo, são usados uma série de amuletos dependendo de cada cultura. O povo brasileiro acredita que a figa é um dos mais eficientes amuletos contra o mau-olhado, porque afasta a força das coisas ruins que possam acontecer .

Quando alguém morre, o hábito universal de fechar os olhos dos mortos para que permaneçam assim e não possam lançar seus olhares invejosos para os vivos, principalmente quando sofrem longa agonia, não deixa de ter caráter supersticioso.

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Tempos remotos

A igreja demarca na história bíblica o ciúme e a inveja. Caim matou Abel pela inveja, que levou os irmãos de José a desejá-lo morto. Povos inteiros sucumbiram por isso. O ciúme dos coríntios para com os pregadores gerou contenta e divisão (1Corínthios 3:3-4).

Foi no limiar desta questão que as psicólogas elaboraram a pesquisa tentando delimitar a linha divisória entre imaginação, fantasia, crença e a certeza do ciúme.

O ciúme normal tem sua origem em diversos mecanismos inconscientes, que visam proteger a pessoa de um sentimento maior de angústia, e acaba atraindo os mais negativos sentimentos humanos: a inveja, comparação, posse, rejeição, temor, ansiedade e o abandono.

“Os ciumentos estão em constante busca de evidências e confissões que confirmem suas suspeitas, mas, ainda que confirmada, essa inquietação permanente traz ainda mais dúvidas ainda do que paz. Os portadores de ciúme patológico comumente realizam visitas ou telefonemas de surpresa em casa ou no trabalho para confirmar suas suspeitas. Os companheiros dessas pessoas vivem dissimulando fatos, elogios e presentes na tentativa de minimizar problemas, mas geralmente agravam ainda mais a situação.”

Em resumo, o ciumento patológico tem medo de perder a sua exclusividade sobre a outra pessoa.

Na psicologia, esta patologia, também conhecida como “Síndrome de Otelo”, em referência ao personagem de William Shakespeare, que matou a mulher por pressentir um adultério, pode levar a pessoa a cometer atos de extrema agressividade física, configurando aqueles casos que recheiam as crônicas policiais de suicídios e homicídios passionais.

De acordo com a tese, psiquiatras ingleses têm notado nos últimos anos um aumento no número de pacientes sofredores dessa síndrome. Um estudo australiano chegou à conclusão de que ela é mais freqüente em sociedades capitalistas, afetando sobretudo os homens, embora não seja uma exclusividade masculina.

O próprio mito de Medéia, a princesa grega que matou o marido e os filhos ao ser trocada, vem provar que desde a antigüidade, a fixação no grande amor pode ter um efeito destrutivo.

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Jung e a sombra

“Para explicar ciúme e inveja através da abordagem analítica do psicólogo e psiquiatra Carl Gustav Jung, precisamos falar da projeção dos arquétipos da anima e animus e da sombra. No corpo de cada homem existe uma minoria de genes femininos que foram sobrepostos pela maioria de genes masculinos. A feminilidade inconsciente no homem, Jung denomina ‘anima’. Do mesmo modo, ‘animus’ representa a masculinidade existente no psiquismo da mulher”, explica Simone Bandeli.

Dessa forma, existe no homem o princípio do Eros que é sua capacidade de sensibilidade, acolhimento e amor. E na mulher, o Logos, que traz a determinação e o direcionamento da iniciativa feminina.

“A projeção da anima pode se dar de forma positiva ou negativa. Assim, vai determinar se um homem vai amar ou odiar uma mulher, se ela será sua alma gêmea ou a bruxa absolutamente insuportável”, ilustra a psicóloga.

Já a mulher guiada pelo animus é governada por preconceitos, noções e expectativas pré-concebidas, se torna argumentadora e quer mostrar que está sempre certa.

Em termos práticos, é comum que a sombra apareça como uma personalidade inferior, pois todos os sentimentos que são reprimidos acabam ficando nela acumulados. No entanto, pode haver também uma sombra positiva, que surge quando a tendência é nos identificarmos com as nossas qualidades negativas e a reprimir nossas qualidades positivas.

“A sombra não pode ser eliminada. Ela é a nossa irmã escura, sempre presente. Quando deixamos de ver onde ela está, é provável que os problemas estejam a caminho. Pois é certo que ela estará atrás de nós. Quando não podemos vê-la, é hora de tomar cuidado. Quanto menos me conheço, maior o problema”, avalia a psicóloga.

Para chegar até a sombra precisamos examinar nossas projeções positivas e negativas. A projeção é um mecanismo inconsciente que embaça a nossa visão e faz com que não enxerguemos o outro como ele realmente é. “Na maior parte do tempo, o que vemos nos outros são as dimensões indesejáveis de nós mesmos.”

Dentro do trabalho de análise, as psicólogas fizeram uma pesquisa de campo e detectaram que é mais fácil para as pessoas admitirem que sentem ciúme do que inveja. “Entretanto, já sabemos que ciúme e inveja andam juntos”, ressalta.

Diante disso, as psicólogas orientam que ao perceber sinais de ciúme ou inveja, as pessoas devem procuar um profissional para ajudá-las no processo de auto-conhecimento.

“É preciso coragem para enfrentar diretamente nossos estados emocionais e dialogar com eles. É aí que repousa a chave da integridade pessoal”, finaliza.

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