Pesca & Lazer

História de Pescador: Véspera da sexta-feira da Paixão


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“Nos idos de 1967 fui convidado para uma pescaria de bagre no rio Batalha, lá no “Caravinote”, município de Avaí, isso na véspera da Sexta-feira da Paixão.

Formamos então a caravana, que tinha como companheiros: Zeca Mady, Tonhão da Força e Luz, Laudelino, Paixão, Malaquias, Manezão, Joaquim Navarro, Carlito, Zé Mineiro, Marco, Uriel, Zeca Venâncio e eu. O lanche ou o caldeirão de comida, sempre acompanhado da pinga “Taluzinho”, do “comestíveis” e as bebidas eram acondicionadas em nossos embornais, os quais já carregavam quirela, farinha de milho, as iscas (minhoca, fígado e lambari azedo) e as latinhas contendo as “traias” da pescaria. Naquela época, não existia plástico ou tampouco isopor.

Além da “traia”, levamos também as varas de bambu, lampião e os fedidos e complicados gasômetros, os quais em sua maioria não funcionavam, pois assoviavam e, às vezes, estouravam, salvo aqueles companheiros que haviam adquirido na oficina do Noroeste. No caminhão do Joaquim Navarro, partimos para o local da pescaria: fazenda do Vardo Jançante lá no “Caravinote”, cerca de 20 km de Avaí, percurso que demoramos quase duas horas de viagem.

Chegando ao local, desembarcamos e cada um foi limpar a beira do rio. Zeca Mady e eu acabamos primeiro e resolvemos nos refrescar no rio Batalha.

Antes de entrar na água, tirei meu relógio novinho em folha, o famoso “Seiko”, que era novidade na época, o qual ganhei de meus pais de aniversário. A novidade significava status, era tão luxuoso como quem tinha um radinho portátil naqueles tempos.

Com todo cuidado, pendurei o relógio no galhinho de um “ingazeiro” ali existente, e fui me deliciar nas águas do Batalha. Logo após retornamos ao local de pescaria onde ficamos à espera do anoitecer, isso já com varas iscadas na espera.

Comilança e pescaria, assim a bagunça continuava e só acabava quando se ouvia o grito de alguém “hei bitelo”, era o sinal de que os bagres estavam atacando, e aí era só se concentrar na “beliscada” dos bigodudos e encher o embornal. Já pelas 23h, era a hora de irmos embora. Reunimos então a nossa traia, embarcamos no caminhão e partimos de regresso para Avaí.

No outro dia, isso já na Sexta-feira da Paixão, ao acordar, senti a falta do meu famoso relógio “Seiko”, fiquei apavorado pois lembrei que tinha deixado na praia na beira do rio, o que diria eu aos meus pais e também o que seria de mim sem o meu “Seiko”? Tentei convencer o Naime motorista de táxi a me levar ao local, mas ele, como é muito religioso não aceitou. O jeito foi esperar o sábado, ocasião em que pedi ao meu tio, o Jarbas Paschoal, para com o seu jipe irmos procurar o meu relógio. Assim foi feito, mas infelizmente por mais que procurássemos não conseguimos localizar o “Seiko”.

Dei como perdido o relógio e nada falei aos meus pais, pois na segunda-feira estava com viagem marcada para São Paulo, onde iria trabalhar na “GE” e na mesma semana comprei outro relógio “Seiko”, no Mappin, em 48 suaves prestações.

Já aposentado em Avaí, em dezembro de 2002, com a enchente do rio Batalha, resolvi descer o rio até Reginópolis. Convidei o amigo Pardal e numa manhã do domingo iniciamos a aventura.

Quando navegávamos lá pelas bandas de “Caravinote” contei essa história ao meu amigo Pardal, ocasião que ele me disse para então prestar atenção, pois por sorte eu poderia localizar o local daquela famosa pescaria. Após passarmos por diversas curvas do rio, veio a surpresa, ali estava a bela praia onde tomei banho naquela pescaria.

Imediatamente, atracamos a canoa, descemos e começamos a analisar o belo e alto ingazeiro que ali estava, com cuidado subi na árvore e aí a surpresa, ali estava ainda o meu querido relógio “Seiko” apesar da correia quebrada, estava ainda “enganchado” no galho e estava funcionando, isso devido o balançar do galho e do vento.

Hoje, meu “Seiko” está dependurado em destaque junto a minha “traia de pesca” no meu rancho em Avaí, sendo que o companheiro que duvidar é só perguntar para o Pardal ou fazer uma visita no meu Rancho em Avaí.” (Sérgio Andrade Moreira é pescador e contador de história)

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