Rural

Cafeicultura passa por grave crise

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 4 min

Depois de ter registrado a maior safra (2002/2003) de toda a história dos 270 anos de cafeicultura no País, o setor atravessa seu pior momento. A afirmação é do vice-presidente da Federação da Agricultura no Estado de São Paulo (Faesp), presidente do Sindicato Rural de Bauru e cafeicultor Maurício Lima Verde.

Para tentar minimizar os problemas, no próximo dia 22, em Brasília (DF), será instalada a Bancada de Apoio ao Agronegócio Café - da qual cerca de 200 deputados já fazem parte - e tomará posse a nova diretoria do Conselho Nacional de Café (CNC). Os cafeicultores esperam que, nesta reunião, alguma proposta viável seja apresentada para o setor.

De acordo com Lima Verde, a segunda estimativa (pré-colheita), feita neste mês, para a safra 2003/2004 indica que o Brasil deverá colher de 27,85 milhões a 30,1 milhões de sacas de café beneficiado. O resultado apresenta uma redução entre 42,5% e 37,9% na comparação com a produção de 48,48 milhões de sacas obtidas na temporada anterior.

“As quedas da produção de um ano para outro e do preço real da saca estão provocando uma verdadeira insolvência na cafeicultura. Depois da safra histórica, todos os mecanismos técnicos utilizados para tentar reativar o mercado, como a rentenção do excesso de produção, não deram resultado”, afirma Lima Verde.

De acordo com ele, o preço da saca está em torno de US$ 50, quando deveria estar, pela média, em torno de US$ 90. Isso está causando uma grave crise social entre os produtores de café, segundo o vice-presidente da Faesp.

Os principais fatores responsáveis pela redução na produção da safra 2003/2004 são a redução no nível de adubação (porque o custo do adubo subiu muito), o abandono de área, a erradicação de cafezais mais antigos e o baixo nível de tratamento fitossanitário, entre outros.

Segundo Lima Verde, a situação é tão crítica que, quando o produtor percebe que terá prejuízos em função de todos esses fatores, acaba interrompendo a colheita antes de terminá-la.

“O mercado está péssimo. Mais grave que os problemas econômicos que essa situação gera são os problemas sociais, principalmente nas regiões do Estado de São Paulo em que as propriedades vivem basicamente do cultivo de café. A violenta queda de produção que está sendo registrada agora terá reflexos num futuro próximo.”

De acordo com Lima Verde, os cafeicultores não estão tendo condições de tratar a produção com os cuidados necessários. Para uma cultura como o café, isto é fatal.

“Impotência”

Outro grande problema apontado pelo vice-presidente da Faesp é a impotência diante do governo. “As coisas demoram muito para ser decididas, porque o governo tem uma quantidade enorme de problemas para resolver. O ministro Roberto Rodrigues (Agricultura) tem muita boa-vontade, mas não pode impor nada ao presidente para que a cafeicultura seja beneficiada”, observa Lima Verde.

Na semana passada, ele participou de uma reunião em São Paulo com representantes dos Estados de Minas Gerais (que detém cerca de 60% da produção nacional de café), Paraná, Espírito Santo, Bahia e São Paulo, com o objetivo de buscar alternativas à crise.

“Ficou decidido que os representantes de cada Estado iriam buscar ajuda junto aos seus governadores, para que eles intercedam pelos cafeicultores junto ao presidente da República. O problema é que a situação é tão grave que não sabemos nem o que pode ser pedido”, aponta o cafeicultor.

Esta “encruzilhada” foi formada porque os prazos para o pagamento das dívidas federalizadas dos produtores já foi prorrogado e porque o governo, segundo Lima Verde, não tem dinheiro para comprar uma parte da produção da safra atual para diminuir o excesso de sacas no mercado e minimizar os problemas. Esta última alternativa possibilitaria a elevação do atual preço da venda da saca.

De um total de aproximadamente 117 milhões de sacas de café em circulação no mercado mundial, cerca de 100 milhões são consumidas. Este excesso de 17 milhões é o principal gerador de transtornos aos cafeicultores, incluindo os brasileiros.

Segundo Lima Verde, o principal objetivo do encontro do próximo dia 22 é encontrar uma solução emergencial para o setor, que seria uma decisão política. Uma das propostas que pode ser viável, na opinião do vice-presidente da Faesp, é o governo estabelecer uma linha especial de crédito para as cooperativas para que elas comprem café dos produtores de todos os Estados que participam das discussões.

“Na medida em que o mercado sabe que as sacas estão sendo compradas, a situação começa a caminhar para um equilíbrio. Mas qualquer saída que se busque precisa ser amparada pelos governadores, que participarão do encontro do dia 22”, diz Lima Verde, que afirma não estar “muito esperançoso” em relação às poucas alternativas que restariam ao setor.

Segundo ele, atualmente existem 300 mil cafeicultores no País e cerca de 10 milhões de pessoas que dependem diretamente do café.

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