Improcede a gritaria dos que defendem a permissividade na posse e a concessão livre do porte de armas. Durante décadas, a população, em parte pela crua e insegura realidade das ruas, em parte pela maciça e capciosa publicidade dos interessados, armou-se aos dentes, sem que se visse diminuída a criminalidade. Ao contrário, a existência de armas de fogo sob o poder de pacíficos mas inabilitados usuários, só tem trazido profundas desgraças às famílias.
Quantos filhos desavisadamente foram assassinados pelos pais em tiros acidentais? Quantos amigos e colegas mutuamente se balearam apenas quando “experimentavam” ou “brincavam” com o gatilho da arma? Quantas pessoas de bem, ao tocar a campainha ou bater à porta de alguém suficientemente apavorado, receberam como gesto de boas-vindas um balaço no rosto?
Penso que a legislação que está sendo gestada deva ser especialmente rigorosa. Em princípio, a proibição deverá ser total, excluindo-se os pouquíssimos casos em que se permitiria a posse da arma, devidamente guardada em local seguro a salvo da curiosidade de terceiros (sobretudo de crianças). Quanto ao porte, entendo que deva ser privilégio dos órgãos policiais ou militares. Tenho profundas dúvidas sobre concessão desta natureza às atuais “empresas de segurança”.
Quem sabe, se devidamente estudado, possa se estender o uso aos residentes em zonas rurais, hoje tão desassistidos pelo poder público no quesito segurança. Mas com toda a cautela que o tema exige.
Aos colecionadores talvez se pudesse permitir a posse, porém sem a autorização para a aquisição de munição. Aos praticantes de tiro ao alvo deveria estabelecer-se o confinamento das armas em local específico do “stand”, único lugar onde se permitiria a prática deste estranho esporte.
Enfim, são estas pequenas idéias que a consciência me obriga externar, em nome de uma racionalidade que os insanos não querem enxergar mas, sobretudo, em nome da vida de todos nós. (Marco Antônio de Souza - OAB/SP 55.799)