Saúde

Distúrbios afetam mais o sexo feminino

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 3 min

As mulheres são as mais afetadas pelos distúrbios causados pelo trabalho noturno. De acordo com a bióloga Lúcia Rotenberg, pesquisadora do Laboratório de Educação em Ambiente e Saúde do Departamento de Biologia do Instituto Oswaldo Cruz, devido às responsabilidades domésticas, a profissional do sexo feminino acumula tarefas e não consegue ter o repouso necessário para restabelecer a energia do organismo.

“A diferença é que a mulher não tem como escolher a hora do sono”, salienta. Ela diz que isso não diminui os efeitos refletidos nos trabalhadores do sexo masculino. No entanto, a carga é bem mais pesada para as mulheres.

A relação se estabelece da seguinte maneira: para o homem casado, os efeitos são menos intensos, na maioria dos casos, já que ele tem a mulher para tomar conta da casa e das crianças. Já a mulher casada sofre mais, pois o fato de trabalhar fora e à noite não diminui as suas obrigações no lar.

“A mulher chega em casa e vai cuidar dos filhos, da roupa suja, da comida, para só depois deitar e descansar. O horário de sono dela é muito curto e desgastante”, salienta Lúcia.

Ela constatou essa realidade depois de desenvolver uma pesquisa em fábricas que trabalham com turnos à noite, no Rio de Janeiro. Entrevistando os operários, Lúcia observou que as mulheres acabam acumulando as tarefas e deixando o repouso em segundo plano.

“A gente chega em casa e tem que dividir o descanso com as tarefas domésticas. É complicado, porque você fica assim, meio desequilibrada: ou você descansa ou cuida das tarefas e dos filhos”, diz Marina, uma das entrevistadas pela pesquisadora para o seu livro “Trabalho em turnos e noturno na Sociedade 24 Horas”, escrito em parceria com as professoras Frida Fischer e Cláudia Moreno.

Lúcia destaca que a pesquisa revela o cotidiano apenas das pessoas que, mesmo sofrendo com a inversão do horário de trabalho, conseguem se manter nessa condição. No entanto, segundo ela, há um contingente de cerca de 15% a 25% de trabalhadores que não se acostumam com o horário noturno.

É o caso da auxiliar de enfermagem Lídia Regina Costalino. Ela já trabalhou à noite e diz que sofria com as conseqüências desse ritmo de serviço. “Eu tinha muito sono lá pelas 23h. Depois desse horário, despertava e ficava estimulada. O problema é que, quando chegava em casa de manhã, demorava para relaxar e descansar”, relata.

A alimentação também ficava prejudicada e Lídia não conseguia fazer as suas refeições normalmente. “Eu prefiro trabalhar durante o dia. É bem melhor”, ressalta.

A pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz lembra que, para as pessoas que trabalham em turnos alternados, como muitos enfermeiros, que fazem plantão uma noite sim, uma noite não, fica mais fácil administrar os problemas causados pela atividade noturna. “Pelo menos, há um intervalo entre as noites em claro, no qual a pessoa pode dormir normalmente”, ressalta.

Vida sexual

A endocrinologista Telma Regina da Cunha Gobbi confirma os malefícios provocados pela falta de repouso adequado. “As doenças do excesso ou da falta de sono podem até interferir na esfera sexual”, relata.

De acordo com ela, o relógio biológico das pessoas não muda em função de fatores externos. “Por exemplo, se você vai para outro país, demora a se acostumar com o fuso horário de lá justamente por causa do seu ritmo biológico”, salienta.

Os distúrbios causados pela falta de uma boa noite de descanso podem trazer conseqüências físicas para o indivíduo, como vômitos e diarréia.

A também endocrinologista Cibele Cabogrosso destaca que esses problemas poderiam ser amenizados caso a pessoa que trabalha à noite conseguisse ter a mesma quantidade e a mesma qualidade de sono que teria durante a noite.

Quem tem diabetes e hipertensão pode ter esses problemas agravados caso passe a noite acordado com muita freqüência. “Sem um horário certo para se alimentar e com tendência a ficar irritado, a pessoa poderá apresentar outros agravantes”, destaca Cibele.

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