Articulistas

O homem da cobra


| Tempo de leitura: 3 min

“Fala mais que o homem da cobra”. Expressão popular e antiga de nosso repertório cultural. Andavam pelas cidades, em tempos idos, mascates com uma sucuri no pescoço para chamar a atenção do público. Formavam, com seu talento, uma roda de populares. Atraiam curiosos de todos os cantos. Debulhavam o verbo na venda de badulaques. Falavam mais que a boca, registrou a memória popular. Eram quase sempre originários do Nordeste. Traziam o falar de onde a prosa viceja, ainda hoje, com traços da velha Arcádia e com flores do Lácio.

Qual jovem, naqueles bons tempos, que tendo cursado apenas o primário, não sabia de cor e salteado versos de Castro Alves, sonetos de Bocage, ou a lírica de Camões? Em que região do País pululavam nomes como Ulysses, Péricles, Heródotos, Cíceros, Trajanos? Bons tempos da presença forte de uma cultura clássica no nosso ensino fundamental. Fruto da boa e tradicional pedagogia da leitura e do ditado, enriquecida pela decoração. O espírito enriquecia com o esforço permanente. Varinha de condão sustentava a autoridade do mestre e despertava lerdos e desatentos.

Hoje, a sucuri é politicamente incorreta. Surgiram cobras venenosas. Os bons de prosa perderam a correção. A pedagogia do livre esforço deu em nada. A pedagogia do humanismo candente reina soberana. Incendeia paixões e a sensibilidades nas escolas públicas. Tempera, com ilusões, o ensino que forma mal os trabalhadores para as tarefas da produção. As tradições do Brasil antigo e os maus hábitos do Brasil moderno convivem no novo século.

O homem da cobra ascendeu à presidência com muitos e modernos méritos. Sorveu, nos anos da militância sindical, as artimanhas do ramo. Anos de militância política, ensinaram as patranhas de lidar com a opinião pública. Temperou os velhos hábitos culturais, com as manhas das modernas técnicas de pesquisas e da marquetagem. Transformou-se em vendedor de ilusões.

Chegou à presidência. Virtudes novas são exigidas. Terrível e desgastante aprendizado do exercício do poder. Em 28 semanas, definiu o estilo do governo. Concentrou o mando central em um núcleo de confiança, sob o comando de José Dirceu. Alguns auxiliares competentes, outros neófitos, vários deslumbrados. Escolheu bem ministros que mantêm o governo de pé. Destaque para Antonio Palocci, na área econômica, onde montou uma assessoria competente. Áreas estratégicas estão sendo administradas com talento: Henrique Meireles no Banco Central, Fernando Furlan no Desenvolvimento, Indústria e Comércio e Roberto Rodrigues na Agricultura. Do Ministério do Trabalho, outro eixo estratégico do poder, com Jacques Wagner, aguardam-se as reformas da legislação trabalhista e do corporativo e corrompido mundo sindical. Os demais ministros formam o segundo plano do governo. Representam composições políticas internas ao PT e alianças parlamentares. Nada acontece na área social (...).

Surpreendente é o clima permanente de espetáculos que produz Lula da Silva. Atordoa até a oposição, que continua basbaque. Balbucia apenas arrufos críticos de tempos em tempos. Lula da Silva começou com o esquecido “Fome Zero”. Mergulhou no espetáculo das reformas. As reformas passaram a ser a salvação nacional. Arrastou na senda das reformas a opinião pública. Nem sequer definiu um projeto básico. Propôs negociações. Inventou conselhos e fóruns de discussão. Trombou com os poderes da República: o Judiciário e o Congresso. Tudo parece diluir-se nas espumas. Nada tem muita importância. Importante é o agito da opinião pública.

Descobriu o espetáculo das viagens internacionais. Percorreu o mundo. Encantou-se com declarações e afabilidades. Seguiu e ultrapassou os passos do mestre Fernando Henrique que usou o velho gesto de declarações decisivas no exterior. Lula da Silva foi à forra. São espetáculos e mais espetáculos. Propôs ao mundo a solução da fome. Declara-se defensor da unidade latino americana. Criticou demagogicamente o Big Brother. Espetáculo global para os matutos brasileiros. Declarações não provocam irisão no Exterior. Virou o homem da cobra internacional. (O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP)

Comentários

Comentários