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Mercantilização do ensino


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O aluno é um cliente? Para aqueles que olham a escola apenas como um negócio, é. E não são poucos os que pensam assim. É que a educação se transformou num produto de mercado. O interesse pela educação, da pré-escola aos cursos de especialização e de pós graduação, vem crescendo mais que a capacidade de criação de escolas e contratação de professores pelo Estado. Com insuficiência de recursos, pagando salários insatisfatórios aos professores e não conseguindo criar e manter em bom estado as instalações e materiais didáticos, o ensino público básico perdeu qualidade. Já o ensino superior oficial tem sua capacidade de expansão limitada e é responsável por quase a totalidade das pesquisas. Juntando todas essas condições, o mercado para o ensino particular expandiu. E virou um negócio, tanto assim que perdeu o benefício da filantropia e agora vai pagar o imposto sobre serviços (ISS). Até em novela a escola vem aparecendo como empresa lucrativa. Organizações internacionais estão criando as suas filiais aqui no Brasil. Segundo Peter Drucker, educação e saúde já representam um terço do produto interno bruto dos Estados Unidos, devendo chegar a 40% nos próximos vinte anos.

O bom seria que a iniciativa privada viesse para fazer aquilo que o Estado não pode fazer, mas não é bem isso o que vem acontecendo. Na pré-escola e no ensino básico até que as escolas particulares, no geral, realizam um trabalho de boa qualidade, porque atendem a camada da população que pode pagar. O ensino público fica para os pobres. No nível superior, salvo algumas exceções, o ensino particular é mais fraco que o ensino público e aqueles que podiam pagar e estudaram em escolas particulares vão para as universidades públicas, gratuitas e de melhor ensino, e aqueles que estudaram nas escolas públicas vão para as particulares. Mesmo atendendo uma maior parcela de estudantes de baixa renda, o ensino superior particular é um bom negócio, como comprova o crescimento explosivo da rede particular. O problema do ensino, entretanto, não se limita à baixa qualidade, que o provão e as verificações feitas por especialistas do MEC, no governo passado, não conseguiram reverter e que no atual governo ainda está na fase das reflexões. Está, também, no conteúdo cada vez mais pobre em ciências e humanidades, subordinado-se às exigências do mercado – aquisição de conhecimentos utilitários e desenvolvimento de habilidades. A competição entre as escolas não é feita pela excelência do ensino, mas pelo que prometem fazer para preparar os estudantes para o mercado, criando títulos sugestivos para os cursos e exibindo os seus laboratórios de informática, os mais fáceis de instalar.

Esse fenômeno não se restringe ao Brasil, e já se levantam vozes contra a mercantilização do ensino, como é o caso do sociólogo francês Christian Laval, que lançou recentemente (na França) o livro “A Escola Não é uma Empresa – O Neoliberalismo ao Ataque do Ensino Público” . Diz ele que “Desde os anos 80 se desenvolve no país (França) a idéia de uma lógica concorrencial no ensino, e se criou uma situação na qual se pode optar por tal escola assim como se compra este ou aquele produto de consumo, um carro ou um apartamento. As conseqüências são uma desigualdade entre os estabelecimentos e uma polarização social crescente com, em certos casos, um apartheid escolar entre escolas de ricos e de pobres.” Entretanto, ele acredita nas forças contrárias a isso e diz que há uma luta contra os interesses individuais e pela recomposição institucional em torno de valores coletivos. Neste sentido, olhando a educação como um bem social, o cliente da escola não é o aluno – é a sociedade, que espera a formação de bons profissionais e, principalmente, de bons cidadãos.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é administrador e ex-diretor da Faculdade de Ciências Econômicas de Bauru.

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