Tribuna do Leitor

Ensinando a ver


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Viajar é sempre um prazer, mas é preciso viajar com olhos de ver. Há pessoas que viajam e nada observam, nada têm para contar, porque, simplesmente, passam por cima dos lugares, das paisagens. Rubem Alves chama esses viajantes de “analfabetos no olhar”.

Camus ao escrever O Avesso e o Direito, com aquela engenhosidade dada-lhe por Deus, evoca lembranças da Argélia: a miséria, o sol, o mar. “Fui colocado - diz ele - a meio caminho entre a miséria e o sol. A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na história.” Sábias palavras, sobretudo para nós brasileiros, que ouvimos insistentemente acusações ao trópico como fator de nosso subdesenvolvimento. Camus vai mais longe: Praga, Palma, Ibiza, Veneza servem de cenário para suas elucubrações. Para Camus, “o que dá valor à viagem é o medo... longe dos nossos, da nossa língua, arrancados de todos os nossos apoios, privados de nossas máscaras... estamos totalmente na superfície de nós mesmos”. E dizer que Camus escreveu tudo isso quando tinha apenas 22 anos! Com quanta profundidade e densidade esse jovem compartilhou de cada lugar, de cada pedaço de terra em que ele próprio ouvia o som de seus passos, dissolvendo-se, muitas vezes, num “cheiro de silêncio”.

Zélia Gattai, que ao lado de Jorge Amado rodou pelo mundo, descreve em vários livros seus périplos, aproveitando cada minuto, cada segundo, para fazer ilações filosóficas, tirar lições históricas de tudo que viu e incorporou. Defensora do socialismo, não se deixou, entretanto, obnubilar pelos vícios do regime pelo qual, durante toda a vida lutara.

E, muito bem alfabetizada no olhar, para usar a muleta que me foi emprestada por Rubem Alves, Zélia, desiludida ao observar o que ocorria em alguns países que tanto admirara, passa a enxergar vieses talvez nunca dantes imaginados, desabafando em sua obra Jardim de Inverno: “Não era preciso possuir conhecimentos teóricos do marxismo, bastava ter cabeça para pensar, olhos para ver e coração para sentir para se chegar à conclusão de que a ambição pessoal, a sede do poder, era responsável por tudo de ruim que acontecia.”

Quanto viajaram Jorge Luis Borges, Pablo Neruda e tantos outros, sempre colhendo gemas e divulgando-as com singularidade e singeleza! “Cruzei o mar - disse Borges. Conheci muitas terras... vi um arrabalde infinito onde se cumpre uma insaciada imortalidade de poentes. Saboreei numerosas palavras... acredito que minhas jornadas e minhas noites se igualam em pobreza e em riqueza aos de Deus e aos de todos os homens.”

Eis aí uma sublime lição do quanto as viagens enriquecem, enobrecem, alargam sentimentos e emoções! E Neruda? Este, sim, sabe da importância dos relatos, das impressões deixadas pela sua pena mágica: “estas lembranças - como ele mesmo disse - são como cartas dirigidas ao tempo. E o tempo, estou convicto, lhe passará recibo.”

Fernando Pessoa tomava emprestada uma frase gloriosa dos navegadores antigos: “Navegar é preciso: viver não é preciso.” O poeta queria o espírito dessa frase, transformada a forma para casá-la com o que ele era: Viver não é necessário, o que é necessário é criar. Pessoa associou o ato da navegação ao da criação. “Afinal, versejou Pessoa, a melhor maneira de viajar é sentir. Sentir tudo de todas as maneiras. Sentir tudo, exclusivamente...”

E há inúmeras oportunidades para sentir. Sentir de formas diferentes. Pode ser saboreando um prato típico naquela aldeia rústica e longínqua de Portugal; ou sentado naquela relva, ao pé de uma colina grega, ao lado de uma escultura em ruínas; ou ainda, estático e emudecido diante do majestoso Coliseu ou dos afrescos da Capela Sistina.

Viajamos para aprender, para assimilar experiências de beleza e - por que não? - de horror, para sentir prazer e medo, mas não é menos verdade que, apesar dos arrepios, dos percalços, sempre sobram mais alegria e boas lembranças no cadinho da memória.

Não importa que os pés se esfolem na jornada, que o coração sangre na saudade porque a alegria será sempre maior, mais intensa. Talvez bem por isso, Cecília Meireles tenha escrito: “Os remos batem nas águas: têm de ferir para andar. As águas vão consentindo - esse é o destino do mar.”

Doutora Maria da Glória De Rosa - mgderosa@bol.com.br

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