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Motos ainda misturam caráter utilitário e paixões

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

O Dia do Motociclista, comemorado amanhã em todo o País, seria apenas mais uma data comum se as motocicletas e seus usuários não tivessem mudado tanto desde a invenção deste veículo.

Entre as décadas de 60 e 70, ser dono de uma moto, além de sinônimo de status, também significava ser tachado de “arruaceiro” e rebelde. Nessa época, o uso das máquinas de duas rodas limitava-se, invariavelmente, ao lazer em passeios e como um instrumento poderoso para impulsionar “namoricos” pelas ruas.

Durante este período, as motocicletas viveram fases distintas no País. Enquanto nos anos 50 e 60, as americanas e européias, todas importadas, dominavam as vias, a década de 70 marcou a invasão das marcas japonesas, com a estruturação de fábricas que permitiram ao motociclista brasileiro a livre escolha de modelos.

Entretanto, ao mesmo tempo que o mercado evoluía, o perfil de utilização do veículo e dos próprios usuários também modificava-se. A motocicleta passou a ter um caráter utilitário e os motociclistas ficaram mais comportados, aderindo ao capacete e respeitando mais as leis de trânsito. Apesar de toda mudança, a paixão pelas máquinas e pelo “vento na cara” permanece intocada no coração de muitos.

É o caso do professor universitário bauruense Alfredo Enéias Gonçalves DAbril, 68 anos, que pode ser considerado um dos “veteranos” do motociclismo na cidade. Isso porque ele vivenciou aquelas que podem ser chamadas como as eras “românticas” do motociclismo bauruense, entre o final da década de 50 e início da de 70.

Alfredo conta que, durante a primeira fase, ele com sua moto alemã importada adquirida em 1958 e mais um grupo de amigos aproveitavam o trânsito diminuto para promover os “corsos” (passeios) noturnos em alguns dias da semana.

A segunda fase iniciou-se, segundo o professor, cerca de dez anos depois. Já com uma Honda 1975 também importada e adquirida em uma concessionária local, Alfredo lembra que freqüentava um grupo maior, com motos mais potentes e mais evoluídas. “Também fazíamos o corso, só que aos finais de semana e durante o dia”, recorda ele.

Outra lembrança que não sai da memória do docente são as famosas corridas de lambreta em Bauru. Os modelos, que surgiram no País entre o final da década de 50 e o início da de 70, eram adaptados pelos apaixonados pela modalidade. “Era louco para ter uma daquelas, pois tinha estilo de motocicleta, só que com roda e tanque de lambreta”, afirma Alfredo.

O professor ressalta, ainda, que os motociclistas dessa época em Bauru não tinham fama de baderneiros. “Essa fama veio ao País importada dos Estados Unidos em razão dos filmes que retratavam os usuários de motos desta forma. Pelo menos no Interior, e em Bauru, tais comportamentos nunca ocorreram, pois eram pessoas comportadas”, garante ele.

Para Alfredo, a mudança do conceito da utilização das motocicletas, e também de seus usuários, era algo já previsível. “O cenário daquela época já acenava para uma crise mundial dos combustíveis e o sucesso das motos como transporte e utilitário”, frisa o docente.

Apesar de não dirigir mais - por cautela e prudência a fim de se prevenir contra o trânsito caótico -, Alfredo enfatiza que a paixão pelas motos não diminuiu. “É um meio de transporte emocionante, em que você tem de ter um domínio total sobre ele, pois não perdoa imprevistos e descuidos e é implacável com os erros”, ressalta o professor.

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Um milhão de quilômetros

O comerciante bauruense Djalma Dias Guimarães, 52 anos, é outro que se considera um apaixonado por motocicletas desde “moleque”. Tanto amor, segundo seus cálculos, já o fez rodar cerca de 1 milhão de quilômetros com várias máquinas de duas rodas. “Já fui a muitos encontros e viajei para o Chile e Argentina”, conta.

Para ele, basta colocar o capacete e o macacão para sentir-se no céu. “Gostar de moto não tem explicação. Está no sangue”, define Djalma. Apesar disso, o comerciante considera que o verdadeiro motociclista é o que sabe aliar as necessidades profissionais aos momentos de lazer.

Por essa razão, Djalma é dono de duas motos: uma “poderosa” CBR 900 RR e uma XR. Para cada uma delas, ele reserva uma finalidade. “Uso a primeira para viajar e sair nas estradas, enquanto deixo a outra para o faz-tudo do dia-a-dia”, explica.

O comerciante considera também que a massificação do uso das motocicletas foi extremamente benéfica. “Hoje é possível ver pessoas das mais variadas classes sociais e profissionais montadas em uma moto”, justifica.

No entanto, ele faz questão de frisar outra triste realidade. “Infelizmente, ainda, há arruaceiros por aí que colaboram para arranhar a imagem de quem curte uma máquina de duas rodas”, conclui ele.

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