Ser

Sexo e paixão na melhor idade

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 7 min

Eles vivem histórias de amor tão emocionantes como as paixões de adolescentes e isso não é exagero da repórter.

“A nossa história eu deixo para ele (Arlindo) contar porque ele estava mais interessado”, dispara Vilma.

O namorado Arlindo conta que, no próximo dia 1 de agosto, fará dois anos que ficou viúvo. Ela já faz 19 anos que enviuvou.

“Eu estava procurando uma companheira porque estava muito solitário, muito sozinho. A minha filha dizia: pai vem morar comigo e eu falava que iria morar na minha casa. Eu comecei a pular de galho em galho. Ia de lá para cá, de lá para cá.”

Até que um dia, ao ir visitar a filha que mora em Mineiros do Tietê, encontrou uma senhora no ônibus lotado que lhe chamou a atenção.

“Eu a olhei de cima em baixo duas vezes e pensei: ‘vou chegar conversa nessa véia’”, confessa, e Vilma solta uma gargalhada. Mas ao mesmo tempo Marinelli se recorda que havia um rapaz sentado ao seu lado e ele ficava pensando se o moço não daria o lugar para a senhora se sentar.

“O meu pensamento era tão forte, que acabei de pensar, o menino se levantou”, orgulha-se, contando a “proeza.”

Eles começaram a conversar. E é claro que “seo” Arlindo investigava cada detalhe que podia. Descobriu que a companheira de viagem também era viúva, morava sozinha, estava indo visitar uma irmã em Pederneiras e voltaria na segunda-feira. Vilma desceu do ônibus. Mas como bom paquerador, antes disso, Arlindo já tinha conseguido o telefone da moça que balançara seu coração e passou também o seu número para ela. “Vou conquistar essa mulher. Ela mexeu com o meu coração, até agora nenhuma tinha mexido. Eu vou dar um jeito”, conta ele.

Ao chegar na casa da filha, o aposentado disse que achava que tinha arrumado uma namorada. A filha questionou: “Outra, pai?!”, mas ele lhe respondeu que agora era para valer e ao descrever a situação acabou ganhando a aprovação da moça, que percebeu seu estado apaixonado e aceitou a nova companheira sem conhecê-la, apenas pelo fato de ser mais velha. As namoradas anteriores de Arlindo eram “moças novas”.

Encontros e desencontros

Na segunda-feira seguinte, “seo” Arlindo não conseguiu encontrar-se com Vilma no ônibus, mas a primeira coisa que fez ao chegar em Bauru foi ligar para ela e dizer que precisava “conversar mais”.

Vilma, por sua vez, não acreditava na história e, precavida, marcou um encontro no Sesc no dia seguinte. Arlindo mobilizou outro filho para levá-lo.

Os dois se encontraram e começaram uma relação amistosa com muita conversa e visitas dele para ela.

“Mas na outra semana, ele iria viajar para Ilha Comprida e queria que eu fosse com ele. Imagine que eu iria viajar com ele assim de uma hora para outra”, comenta Vilma que apresentou mil pretextos: falta de dinheiro, carro quebrado, compromissos, etc. Mas nada disso fazia o pretendente desistir da idéia.

Ela, na verdade, além de estar com medo da reação da filha, não queria ir. “Eu não o conhecia direito e nessa altura ainda não gostava dele”.

Mas a insistência de Arlindo foi tamanha que Vilma acabou cedendo ao convite (“se cada um ficasse de um lado”) e até mentindo para a filha que iria viajar com umas amigas.

Ao chegarem no destino, a guia colocou os dois juntos com um outro casal no mesmo apartamento, para desespero de Vilma.

“Espera, vamos ver como vai ser”, ponderou Arlindo, que chegou no quarto e viu três beliches. Ela ficaria em baixo e ele com a cama de cima. Mas na hora de dormir o outro casal, também de terceira idade (só para lembrar), se ajeitou em apenas uma das camas de solteiro. Afinal, eles viviam juntos.

A cena fez com que Vilma convidasse Arlindo para descer e também ficar com ela na cama de solteiro.

“Mas ela já foi avisando que prometia para mim que nada ia acontecer, e eu tive que jurar que iria ficar quieto no meu canto.”

Foi o que aconteceu. Além de um beijo de boa noite, os dois dormiram abraçadinhos sem nada mais acontecer durante cinco noites.

“Eu subia nas paredes, mas dizia comigo: eu vou agüentar”, revela Arlindo.

“Ele só me conquistou por causa disso”, acrescenta Vilma.

No último dia do passeio, os dois fizeram um trato que se chegassem de madrugada em Bauru, Vilma dormiria na casa de Arlindo, mesmo que fosse em camas separadas, porque além de querer dormir com ela, ele não deixaria que a namorada pegasse o carro, que ficou na casa dele, e fosse embora; muito menos se prontificou a levá-la. De caso pensado, é óbvio.

A honestidade do pretendente acabou conquistando o coração de Vilma e neste dia “aconteceu”.

No dia seguinte, Arlindo foi conversar com a filha de Vilma, contaram a história da viagem e começaram a namorar de fato.

Pouco tempo depois, mas após muita conversa e negociação com os filhos, os dois já estavam morando juntos. Ele pediu a aprovação da família inteirinha dela, levou Vilma para conhecer a sua e já marcaram o casamento para setembro.

“Sabadeira”

Casados há dez anos, Luiz e Eurides Módolo vivem em casas separadas. “Nós não moramos juntos por causa dos filhos”, argumenta Módolo.

Eurides conta que quando começaram a namorar, ao sair de casa para ir a um baile, um dos seus filhos que na época tinha 7 anos, saía correndo atrás do carro. “Não tinha como a gente estar junto. Mas nós queríamos continuar juntos. Ele é ministro da eucaristia e o pessoal da Igreja já estava pegando no pé. Então, nos casamos no religioso, mas com esse acerto de cada um ficar na sua casa por causa dos filhos.”

Entretanto, as duas famílias aceitam o casamento e todos se dão bem, o problema está na convivência. Luiz aponta que não tem mais idade para ouvir rock no último volume. Por outro lado Eurides pensa na liberdade e no jeito de viver dos filhos.

Mas estão sempre juntos nas atividades do Sesc, em almoços ou jantares na casa de um ou de outro, ou apenas pelo simples prazer da companhia. O dia de folga é a segunda-feira, mas o dia de festa é o sábado: eleito para ir à missa, ao baile e dormir juntinho na casa de Luiz, que mora sozinho.

“Apesar da gente ser casado, eu prezo muito o respeito e a privacidade. Desde que a gente se casou, eu escolhi o sábado como o nosso dia e por isso, ele me chama de sabadeira”, conta Eurides.

“Eu a chamo de sabadeira sim, e sabe por quê? Eu falo para ela que ela poderia posar comigo durante a semana. Mas ela fala não. O que acontece, é que no sábado a gente vai à missa, depois da missa nós vamos ao bailinho no Clube Vovó e depois então... nós vamos para casa, né? Então, eu a apelidei de sabadeira porque durante a semana ela nunca quer ir”, diverte-se “seo” Luiz.

Provando o contrário

Apesar da idade avançada, esses casais vivem uma paixão de adolescente e o sexo faz parte da vida deles, sim.

Para a professora Eurides, que resiste aos convites do marido para levá-la para cama várias vezes por semana, apenas um dia para namorar é o bastante para satisfazer seus desejos. Ela jura que não é o fato de viverem em casas separadas que a faz tomar a decisão. “Só o sábado me basta. Eu estou muito satisfeita com o sexo que ele me dá. É maravilhoso! Se não estivesse satisfeita iria procurá-lo mais vezes. Mas eu acho que o sábado vale para a semana toda.”

“Enquanto isso, eu fico carregando a bateria!”, brinca “seo” Luiz. Entretanto, mesmo aos 70 anos “seo” Arlindo faz questão de afirmar que não há dia, hora ou lugar para o amor.

A namorada Vilma confirma que o seu moço é bem fogoso.

E para quem pensa que mesmo com a maturidade, principalmente sexual, essa turma não tem medos nem encanações, está muito enganado. As “meninas” zelam pelo corpo e boa forma e ficam na maior ansiedade para saber como foi o desempenho. Algumas até têm vergonha de tirar a roupa em frente ao par, como é o caso de Eurides.

Infelizmente, ainda nessa idade elas revelam também que os homens não aprenderam que as mulheres adoram preliminares caprichadas.

Por sua vez, nossos dois entrevistados juram que até agora não precisaram de nenhum remédio para manter o vigor da relação e, sem medo de ser feliz dizem que quando for necessário vão buscar recarga na farmácia, sem o menor problema.

____________________

Leia mais sobre o assunto

• Idoso não é sinônimo de "assexuado"

Comentários

Comentários