“Ser velho não representa mais estar na ante-sala da morte. Podemos chegar lá com capacidade de ir e vir, com uma vida repleta de novos e positivos valores e com fôlego para descobertas. Depende de como cuidamos do corpo e da mente na juventude e na vida adulta”, defende o geriatra Edison Rossi, que no último sábado participou da II Jornada de Saúde Sexual do Homem, realizada na Caso do Médico, em Bauru, e coordenada pelo urologista bauruense Aguinaldo Nardi, vice-presidente da Sociedade Brasiliera de Urologia (SBU) de São Paulo.
Para o médico, não existe o chamado “velho”, ele acusa a própria sociedade de criar esse preconceito. E partindo desse princípio, as pessoas com idade mais avançada tendem a se “autopreconceituar”.
Nesse sentido, Rossi revela que a sexualidade não se traduz apenas ao aparelho genital, mas sim nas emoções envolvidas como o bem querer e o amor.
“O preconceito está em quem vê a situação de dentro. Todo mundo pode fazer sexo. Mas a sua mãe não pode, os seus avós também não. Então, eles são vistos como se não tivessem nem desejo, nem capacidade e isso é contra uma regra biológica.”
Dessa maneira, o preconceito das pessoas mais novas faz com que os mais velhos passem a “funcionar” pelo relógio social e acabam deixando de lado o seu relógio biológico muito longe de atrasar.
O lançamento de medicamentos que revertem o quadro da disfunção erétil é comemorado pelo geriatra, não somente pelo avanço da medicina, mas pela discussão do tema por toda a sociedade. Viagra e Cialis trouxeram à tona o tabu de que idosos eram assexuados e, na verdade, não são.
Rossi ponta que a base emocional é o grande pilar da sexualidade na terceira idade. A quantidade de relações pode até diminuir, mas a qualidade pode aumentar. “O sexo na terceira idade é diferente, mas existe.”
E ao contrário do que se imagina, um idoso pode até ter um desejo maior que o jovem, naturalmente impetuoso quando o assunto é sexo.
Os hormônios na terceira idade diminuem, mas se estabilizam e fazem com que se queira mais. Dessa forma, se renova o ciclo.
A disfunção erétil relaciona-se diretamente com a idade em todos os domínios da função sexual (desejo, orgasmo, capacidade eretiva, freqüência...). Por exemplo, estudos apontam que ereções inadequadas ocorrem em 3% dos homens na casa dos 50 anos e em 64% nos de 60.
Problemas sexuais são também relativamente comuns em mulheres, afetam cerca de 40% das mulheres jovens e, também, aumentam com o envelhecimento. Nelas, mais do que nos homens, é maior o impacto das alterações hormonais associadas com o envelhecimento frente às questões da esfera sexual. A detecção dos problemas sexuais das idosas deve aumentar nos consultórios médicos, fruto de uma maior e mais sadia longevidade, de uma vida mais independente, da liberação feminina e, sobretudo, pelo maior acesso às informações sobre a sexualidade.
De toda forma, a saúde ou os distúrbios sexuais de ambos os sexos resultam da interação de fatores biológicos, psicológicos e sociais.
Desinteresse
Muita gente pode dar graças a Deus quando chega a andro ou a menopausa e com ela o mito de que a vida sexual está cumprida.
Isso se dá porque mesmo no ápice da atividade as relações foram desestimulantes, sem beijos, carícias, variações, tudo foi mecânico e rotineiro.
“Sexualidade não significa apenas atos e prazeres dependentes de um aparelho genital perfeito e sim um conjunto de atividades, excitações e emoções inerentes à vida humana. O sexo e a sexualidade mudam com a idade, com as doenças, com as emoções... A individualidade deve ser sempre respeitada, pois alguns mostram um grande alívio quando não mais precisam fazer sexo, enquanto outros vivenciam situações de aflição em razão de uma diminuição transitória no apetite sexual, ao lado de muitos que mostram uma progressiva perda de interesse sexual, muitas vezes decorrente de uma performance repetitiva, monótona, tediosa... e o não desejo de modificá-la!”, avalia Edison Rossi.
O geriatra que coordena um centro de estudos de idosos, em Campinas, revela que alguns pacientes sentem-se aliviados em não ter mais a obrigação de ter relações sexuais.
Nesse sentido, pode-se perceber que muitos dos usuários de medicamentos para a disfunção erétil ainda estão em idade atuante, mas os problemas do cotidiano, a falta de afeto, o estresse e a ansiedade acabam corrompendo não só as relações humanas, mas também as sexuais.
A ansiedade é uma vilã tão cruel que pode até comprometer o uso de um medicamento para ereção.
“Isso pode perfeitamente acontecer, pois os tempos são diferentes. O jovem tem estímulos muito mais superficiais e podem até passar vergonha após um olhar. O idoso vai precisar de mais estímulo, sua ereção naturalmente será menos demorada. Mas tudo depende de seu emocional. Os medicamentos agem no sistema mecânico da ereção, mas não são afrodisíacos, não alteram a vontade sexual.”
Longevidade
Assim, sabe-se hoje ser perfeitamente possível uma vida de prazer mesmo aos 80, 90 ou mais de 100 anos de vida. A receita? Uma “boa” genética aliada a bons hábitos desde infância, passando pela adolescência, cuidando-se na fase adulta para que se tenha velhice sã, tardia e serena.
“Pitágoras já dizia: “Jamais descuides da saúde do corpo. Sê moderado no comer, no beber, no exercício e no descanso, pois tanto o excesso quanto a falta são prejudiciais”. Objetivamente os estudos médicos confirmam a premissa de que bons hábitos têm efeitos positivos na quantidade e qualidade de vida na velhice. Assim, vemos que nem todos vivem mais de 80 anos, todavia, aqueles que ultrapassam poderão ter uma vida melhor na dependência de seus hábitos pregressos”, avalia Rossi.
Na opinião do geriatra, são importantes fatores para a longevidade sadia: uma boa genética, uma vida ativa tanto física quanto mentalmente, saber que nunca é tarde para começar a ser ativo - e isto vale para qualquer grupo etário! - uma dieta apropriada, um peso normal na média, o consumo moderado de álcool e a distância do cigarro.
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Alegria e carinho são os maiores "estimulantes"
Medicamentos são bem-vindos, mas o homem que luta contra a disfunção erétil também precisa de uma boa dose de afetividade em sua vida íntima para atingir, mais do que a ereção, um ponto de equilíbrio entre suas funções sexuais e necessidades psicológicas.
A afirmação é do psiquiatra Moacir Costa, de São Paulo, que, no último sábado, também participou da II Jornada de Saúde Sexual do Homem. “A disfunção já foi um verdadeiro flagelo para os homens”, observa.
“Há 30 anos, eram comuns quadros depressivos, alcoolismo e suicídios causados, em última análise, pela perda da potência sexual. Hoje, esse quadro pode ser revertido com os remédios, mas o processo não pode ser meramente mecânico.”
Autor de oito livros sobre amor e sexo, entre eles o recém-lançado “Amar Bem” (Editora Gente), que já está na segunda edição, Costa defende uma terapia sexual mais “breve e focada” porque o homem quer resultados rápidos, porém seguros para resolver seu problema. “Também nesse aspecto, a afetividade, construída pela constante troca de carinhos e atenção mútua, pode colaborar para reduzir a ansiedade masculina e, dessa forma, tornar o processo de recuperação menos desconfortável para o casal.”
O urologista Adriano Fregonesi, de Campinas, fez uma exposição sobre as diferenças entre os três medicamentos utilizados contra a disfunção erétil: Viagra (desde 1998 no mercado), o Levitra (cuja composição molecular é semelhante à do Viagra) e o Cialis (que tem a chamada “janela de oportunidades” mais ampla porque age no organismo por até 36 horas). “Todos têm efeitos colaterais semelhantes, como dor-de-cabeça e dores nas costas, mas também apresentam eficácia clínica parecida”, disse. “No caso do Cialis, contudo, não há contra-indicação na ingestão com estômago cheio ou concomitante com o consumo de bebida alcoólica.”