A falta de clínico geral e anestesistas pode comprometer o cronograma de ampliação do atendimento de pacientes do Hospital Estadual de Bauru (HE). O alerta é do diretor da área médica da instituição, Antero Frederico Macedo de Miranda. Segundo ele, nem mesmo os últimos concursos públicos realizados conseguiram preencher todas as vagas disponíveis.
Miranda aponta dois fatores como possíveis causas para o fenômeno: o baixo número de profissionais nestas duas áreas e o salário oferecido, R$ 1.380,00 mensais para 24 horas semanais de trabalho.
Ele revela que as três enfermarias que já estão em funcionamento precisariam de, pelo menos, nove clínicos no total. “Hoje, estamos com quatro, o que é muito pouco. Isso está penalizando muito os profissionais que estão aqui, que passam o dia inteiro evoluindo os pacientes e ainda ouvem reclamações deles, de que não conseguiram cumprir os horários”, afirma.
Com relação aos anestesistas, o problema é o mesmo. “Se eu for colocar dez salas cirúrgicas em funcionamento, em dois turnos, como pretendemos, precisaria, no mínimo de 20 profissionais. Hoje, temos seis ou sete”, declara.
Miranda diz que o concurso para anestesistas, realizado neste ano, teve boa procura, mas que poucos dos 14 aprovados aceitaram assumir o cargo. “Estamos esgotando todas as listas de chamada. Tivemos um número até grande de candidatos, mas há a questão da disponibilidade de tempo restrita. Eu tenho ofertas para oito horas semanais, ou só o período da noite, ou só o fim de semana”, afirma.
No concurso para clínico geral, feito em maio, o problema foi o mesmo. “Foram contratados seis, mas dois já desistiram”, revela.
O diretor conta que há a previsão de um novo processo seletivo para os clínicos e que o HE resolveu adotar algumas medidas com o objetivo de chamar a atenção dos candidatos. “Estamos nos antecipando, fazendo uma busca ativa de médicos na região e os convidando a vir com um contrato temporário até que abramos o concurso para que eles se inscrevam e se oficializem”, revela.
Os resultados até agora, porém, são desanimadores. “Está difícil. Rodamos muito, mas acho que eles estão bem nos lugares deles. Trouxemos alguns clínicos de Jaú que acabaram desistindo por conta de terem que viajar. A atividade é muito estressante e eles alegam que saem cansados, pegam a estrada, muitas vezes com neblina, e estão sujeitos a acidentes”, diz.
Motivos
Para o diretor da área médica do HE, falta clínico geral no mercado. “Eles não chamam tanto a atenção da mídia e também são menos procurados, do que os especialistas. Com isso, são muito desprestigiados e poucos se formam. O clínico tem que ser um médico muito bom e muito completo. Isso é difícil”, opina.
Miranda acredita que o mesmo problema atinja os anestesistas. “Como é uma área restrita, basicamente de hospital, cria um dificultador. Há um número razoável de formação, mas menor do que necessita o mercado”, declara.
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Salário
Um dos médicos anestesistas contratados pelo Hospital Estadual de Bauru (HE), Rodrigo Kesam, acredita que o salário é a principal causa para que outros colegas não se sintam atraídos pelo cargo. “Só vale a pena ser contratado se o anestesista for de Bauru. Para o pessoal de Botucatu, acaba não sendo vantajoso porque eles têm que pagar a gasolina”, opina.
Kesam fez residência em anestesia na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu e diz que o campo de trabalho do setor é muito concorrido. “Anestesia é uma área fechada. Não daria para montar um consultório sozinho. Precisaria entrar em algum grupo que já exista. Para quem não é de nenhum grupo, não há possibilidade financeira de trabalhar apenas no hospital”, declara.
Para ele, o número de profissionais que terminam a residência atualmente é mais do que suficiente. “Em São Paulo, se formam muitos anestesistas e acaba nem sobrando vaga para todos”, diz.
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