“1987, mês de setembro, excelente mês para pescaria, se bem que, no ano citado, qualquer mês era bom para pescar no rio Paraguai. Nesta época existia o tão famoso trem dos pescadores. Você fazia as reservas com a Cláudia, que era a encarregada de marcar as datas, que aliás não era nada fácil, em função de tantas caravanas que existiam.
Sempre saíam dois ou três vagões especiais na cauda do trem de passageiros (sempre às sextas-feiras), era uma farra do começo ao fim da viagem. Para quem nunca fez esse passeio, o vagão especial da caravana tinha: cabine para quatro pessoas, várias delas, sala de jogos e cozinha completa, sendo que o cozinheiro era o primeiro a ser instalado, para fazer a comida. Pois quando o trem partia, sempre às 16h30, enquanto o pessoal se acomodava, depois das infinitas despedidas e de pedir proteção a Deus durante todo o trajeto, (normalmente demorava 30 horas, se não houvesse nenhum imprevisto), era pura comilança e bebedeira.
Nossa caravana era formada por vários amigos, entre eles, o engenheiro Jocelym Fernandes Lopes, que era o chefe da caravana, também comandada pelo pescador de primeira, Comar, Nelson Giraldi, Celso Martha, Cal (Padaria Doce Momento), Dirceu (irmão do Comar), Lot, Edson (Baurular), Dunga (Serralheria Colonial) e mais alguns, que não me recordo, a memória anda curta.
A caravana era formada por mais ou menos 14 pessoas, fora o cozinheiro, senhor Ventura. As pescarias eram excelentes, pois havia peixe à vontade, não existia a cota que existe hoje em dia, a cota era liberada, tanto que no retorno da caravana, na estação, lá estavam todos os parentes, que também ajudavam a carregar os peixes.
Era uma fartura: dourados, pacus, jurupocas, jurupensens, pintados, jaús enormes... Na divisão dos peixes, cada pescador pegava seu monte, definido por sorteio que era feito na chegada. Ajeitávamos os peixes na caixa, levávamos para casa e colocávamos no freezer e dava para comer peixe até a próxima pescaria, no ano seguinte.
Entre meus queridos parentes, lá estava, esperando, quando não podia ir junto, pois era meu melhor parceiro de pescaria, meu sogro, João Padovini (pai da Branca), italiano, de um coração sem igual, em tudo que fazia era muito rápido e estabanado.
No meu monte havia vários peixes enormes, entre eles um jaú de 62 quilos, que precisava de dois para ser colocado no freezer. Então peguei na cauda e o João Padovini enfiou a mão na boca do enorme jaú para colocarmos no freezer. Ajeitados os peixes, fomos jantar, quando o João Padovini deu por falta do seu relógio de pulso, era de estimação, procuramos aqui e ali e nada do relógio.
Passados mais de quatro meses, quando resolvi fazer para meus funcionários da serralheria um churrasco do enorme jaú, pois um bom pescador sabe que um jaú de 62 quilos só é bom para churrasco, pois a gordura escorre toda, foi quando tivemos uma surpresa.
Descongelamos o enorme jaú e lá estava, na barriga do peixão, o tão procurado relógio do estabanado João Padovini e, por incrível que pareça, funcionando, hora e data. Talvez por ele ser automático, com a trepidação do freezer ele continuou funcionando.”
Dunga é pescador mas não é contador de histórias, pois esta é verdadeira.