Articulistas

Bauru: 107 anos


| Tempo de leitura: 3 min

Hoje, dois sentimentos me assaltam: alegria e saudade. Alegria pelo progresso da minha querida cidade, Bauru, nestes 107 anos. Vejo-a crescer, desenvolvendo-se nos vários setores. Eu sei que o progresso é necessário, inevitável, mas, às vezes, ele machuca, dificultando-nos a lembrança de muitos lugares que marcaram nossos caminhos fazendo-nos felizes e realizados e de muitas pessoas que nos foram caras.

Hoje, a saudade também se apodera de mim com uma pitadinha de tristeza. A cidade que agora me apresentam, é bem diferente daquela onde, há mais de meio século, sempre vivi. A cada ano, ela vai mudando. Casas foram destruídas, dando lugar a grandes e altos edifícios. Vêem-se praças descuidadas, carros modernos e velozes pelas ruas, crianças monitoradas com segurança, portas trancadas, muros altos, cercas elétricas, pit bull, tudo mais em um contexto de medo e insegurança.

Procuro a minha cidade de antigamente e não a encontro. Procuro os vizinhos que, à noite, colocavam as cadeiras nas calçadas para bater papo, as crianças brincando na rua de pega-pega, balança-caixão, pião, salva, garrafão, mãe da rua, búrica, queimada. Só vou encontrá-las em apartamentos, divertindo-se apenas com aparelhos eletrônicos (vídeo game, Internet).

Onde foi parar a juventude bauruense, que fazia o “footing” na Batista e na 1.º de Agosto jogando todo o charme em cima das jovens que depois de rodarem pelo jardim da Matriz, iam tomar o café no Juca Pato, o sorvete do Jorge ou um refrigerante na Lalai?

Parece que tudo acabou! Não se fazem mais rodinhas de comadres nas esquinas, não se vai mais a confortáveis cinemas com ambiente propício para assistir a um bom filme. Cadê os cines Bauru, Bandeirantes, São Paulo, onde as jovens entravam antes para guardar lugar no cinema para o namorado entrar depois que as luzes se apagassem? E lembrar que, hoje, em nossos cinemas só há anarquia e desrespeito dentro e fora deles. Meu Deus, que progresso demolidor é esse que vai arrasando tudo, jogando tijolos no chão, esquecendo-se de que com eles se vão também nossas histórias...

E os leiteiros e os padeiros entregando os seus produtos de madrugada de casa em casa. Tudo era respeitado. E os jovens indo para a missa das onze na Igreja Santa Teresinha, descendo depois para o aperitivo dançante do Tênis? Simplesmente tudo acabou.

E o nosso trem da Fepasa? Que bom ir a São Paulo acomodado no vagão Pulman, com poltronas confortáveis e giratórias, e garçons a nos servir. Mesmo que a viagem demorasse quase quatro horas, era uma festa passear de trem. Por que acabaram com nossas ferrovias, com viagens tão seguras e mais baratas? Foi descaso e desinteresse de nossos políticos, ou foi em nome do progresso?

O tempo não nos preocupava, nem relógios usávamos. Éramos orientados pelas badaladas dos relógios da Casa Lusitana e da Igreja Santa Teresinha ou ainda, pelo apito das Oficinas da Noroeste (7h, 11h e 16h30). E hoje o que se ouve? Carros de som de propaganda, trânsito de carros ensurdecedor (freadas, buzinaços).

Ah! Minha Bauru querida do presente e do passado. Conhecida como “Cidade sem Limites” passou a ser, infelizmente, “Cidade das Cassações”... Ficaram as ladeiras, ficaram as subidas e descidas, os ipês floridos, as andorinhas (poucas porém).

O céu com o azul mais lindo do Brasil e o pôr-de-sol, o mais radiante e luminoso ainda permanecem. Pelo menos, isso o progresso não nos tirou. Passeando pelas ruas da cidade, poderíamos encontrar: o Dito Galango, o Dito Pé de Breque, o Pelezinho, o Biscoito, a Maria Papeleira, tipos folclóricos e pitorescos. Tenho saudade, e muita, de minha Bauru antiga. Ficará na lembrança, e só sinto que nossos filhos e netos não a tenham conhecido. Não sou contra o progresso, mas tenho o direito, neste dia, de aproveitar a oportunidade que a vida me dá, de prestar atenção e valorizar aqueles pequenos momentos vividos nesta querida Bauru. A saudade é o colorido mais bonito da vida. É como uma tela em branco em que vamos marcando, com fortes pinceladas, cada momento que enriqueceu o nosso passado, muitas vezes visto em preto e branco. (O autor, Gino Crês, é professor)

Comentários

Comentários