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Nasa condecora cientista bauruense

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 7 min

O coordenador de pesquisas do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp-Bauru) Roberto Vicente Calheiros foi condecorado pela Agência Espacial Norte-Americana (Nasa). Ele foi o único brasileiro a participar da Missão Aqua (Estados Unidos), que tinha como principal objetivo aumentar a qualidade das informações transmitidas por satélites.

A missão faz parte do Programa de Sistema de Observação da Terra (EOS), que prevê a existência de três satélites em órbita para monitorar o meio ambiente em todo o mundo, permitindo a avaliação da deterioração ambiental com dados precisos sobre a poluição da terra, água e atmosfera. Dos três satélites, o Aqua é o que inclui equipamentos específicos para fins meteorológicos.

Mas a medalha entregue pela Nasa é apenas uma vitória de Calheiros, que tem uma história repleta de bons resultados. Entre eles, a implantação do IPMet em Bauru. Em entrevista ao Jornal da Cidade, ele fala dos marcos de sua carreira e da importância que dá ao desenvolvimento do setor de ciência e tecnologia para a soberania de um país.

Jornal da Cidade - Qual foi sua participação na Missão Aqua? Roberto Calheiros - A comunidade meteorológica mundial espera há mais de 20 anos que a sondagem vertical da atmosfera para a previsão do tempo, e outras informações, pudesse ser feita por satélite com grande precisão. Hoje, isso é feito por meio de radio-sondas enviadas ao céu em balões, que você lança duas vezes por dia. Com o satélite, você poderia acompanhar as variações continuamente. A melhoria seria brutal. Em 1988, a Organização Meteorológica Mundial determinou que esse deveria ser o próximo grande esforço na área de satélite. que se tivesse um sondador a bordo do satélite cuja qualidade de sondagem fosse compatível com a de radio-sondas convencionais. Os Estados Unidos responderam a isso planejando a Missão Aqua.

O satélite Aqua foi lançado em maio do ano passado. Ele leva três equipamentos, um deles é o sondador de umidade do Brasil, do qual sou responsável pela parte técnico-científica. E realmente a gente fez um trabalho que valeu a pena, conseguimos levar um sensor de qualidade para o satélite e completamos bem a missão.

JC - Muitos anos antes, o senhor já trazia o IPMet para Bauru... Calheiros - É. As atividades que acabaram levando à criação do IPMet começaram em março de 1969 - 34 anos atrás. Na época, a universidade era a Fundação Educacional de Bauru (FEB), uma instituição de direito público, sem fins lucrativos, mantida por recursos da prefeitura e da mensalidade dos alunos. Como instituição comunitária, ela tinha que atender ao trinômio do objetivo: educação, pesquisa e extensão dos resultados à comunidade. Então, foi procurada uma área em que a FEB pudesse concentrar atividades de pesquisa. A diretoria investigou e optou pela meteorologia, que tinha alto custo-benefício, era pouco desenvolvida no Brasil e era prioritária para o governo federal, o que facilitaria a obtenção de recursos. Naquela época, eu trabalhava na Comissão Nacional de Atividades Espaciais (Cnae, precursora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - Inpe), em São José dos Campos. Eu fui o coordenador do programa pioneiro do satélite tecnológico de recursos na Terra, o Erts. Foi o primeiro de acionamento remoto do mundo, fora Estados Unidos e Canadá.

Como eu sou de Bauru e trabalhava na área, eles me convidaram para coordenar o projeto. Fiquei afastado temporariamente de lá e vim coordenar as pesquisas aqui (...) Eu trouxe o suporte eletrônico de lá e fomos montando o instituto, que só seria formalizado em 1973.

JC - E a Cnae? Calheiros - Como o IPMet era pequeno, eu pude retomar parcialmente minhas atividades na Cnae. Fui coordenar o Erts - o primeiro programa de assessoramento remoto da Nasa. Comecei a implantar o sistema lá em 1973. Em meados de 1974, eu vim tocar o programa de radar no IPMet. Chamava-se Radasp e foi o primeiro radar meteorológico instalado no hemisfério Sul do planeta.

JC - Depois disso, o radar sofreu modificações... Calheiros - É, o radar de 1974 foi o começo. Depois, tivemos vários eventos. Vou citar alguns marcos. Depois do Erts, deixei a Cnae e vim tocar o radar aqui. Tive a felicidade e o privilégio de participar de vários projetos pioneiros, vários projetos históricos. Eu acho que é um privilégio você atender à sociedade, devolver um pouquinho do muito que a sociedade lhe deu (referindo-se à formação em universidade pública).

(...) Outro marco foi entre 1978 e 1981. O radar de 1974, que era um sistema analógico, foi transformado num sistema digital. Essa transformação foi fruto de um acordo nosso com o conselho de pesquisa da província canadense de Alberta (ARC), que era uma corporação da coroa, sem fins lucrativos. Eles transferiram todo o software (que valia US$ 1,5 milhão) gratuitamente para nós. Só pagamos os equipamentos, num valor de aproximadamente US$ 300 mil. (...) Esse radar de 1974 operou 18 anos conosco 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 ou 366 dias no ano. Ele foi desativado em 1993, para dar lugar ao equipamento que opera hoje.

JC - E o que foi feito com o antigo equipamento? Calheiros - O radar está operando atualmente na Universidade Federal de Alagoas, só eles substituíram o processador canadense por um francês. O canadense era gigantesco e está exposto no IPMet como peça de museu. Para implantar aquele radar, na época, a Fapesp trouxe um dos pesquisadores mais destacados do mundo na área de assessoramento remoto em meteorologia. Ele visitou várias universidades e recomendou que a instalação fosse feita aqui porque estávamos no centro geográfico do Estado, e pela demonstração de disposição da FEB em nos dar apoio. Em 1983, iniciamos o Radasp 2. Nós repassamos a experiência de Bauru, envolvemos a Universidade de São Paulo (USP), o Inpe, o Departamento de Água e Energia Elétrica (Daee) e ampliamos a abrangência para todo o Estado.

JC - Quais foram os benefícios decorridos desta iniciativa? Calheiros - Em 1988 criamos o projeto Ciago - Centro Integrado de Informações Agrometeorológicas. Operado conjuntamente com o Instituto Agronômico de Campinas (IAC), o IPMet fornece informações meteorológicas para auxílio à agricultura. Fizemos estudos de benefício x custo para a indústria sucroalcooleira, que é quem nos dá suporte (financeiro) até hoje. (...) Também apresentamos, em 1989, o Sipmet - Sistema Paulista de Meteorologia, que previa uma rede de três radares: Bauru, Presidente Prudente (Leste) e Ponte Nova (Oeste). Aí, eu deixei a direção do IPMet, em 1994.

JC - Atualmente, o senhor coordena as pesquisas do IPMet. Calheiros - Isso. Hoje estamos implantando o o Sistema Integrado Hidrometeorológico do Estado de São Paulo (Sihesp), que é o Sipmet, só que em expansão. Dentro deste programa, eu coordeno um projeto de radares oceânicos, em conjunto com a Universidade de Hamburgo (Alemanha).

O objetivo é implantar (até o final de 2004) radares oceânicos que nos permitam acompanhar e prever o deslocamento de manchas de poluição quando ocorrem, prever as correntes marinhas para operações portuárias, para a pesca. (...) Agora estamos com um projeto junto à comunidade européia. Em janeiro ou fevereiro, usaremos um avião especial para grande altitude (22 mil metros) para fazer medidas inéditas (...) Nossa parte no projeto é fazer validação de medidas de satélite.

O satélite mede lá de cima. Você calibra o sensor para umidade e temperatura e ele mede de uma distância de 700 a 800 quilômetros. Como você garante que estas medidas estão corretas? Vamos mandar um avião com instrumentos a um determinado ponto para confirmar os dados do satélite e validar uma série de informações para várias pesquisas. (...) Existem também os spin-offs ou subprodutos. Para citar um, este sensor de microondas que está a bordo do Aqua, além das medidas meteorológicas, existem estudos dele voltados para a medicina. O spin-off busca detectar radiações emitidas pelo corpo numa intensidade infinitamente baixa. O sensor poderia captar freqüências emitidas por células que prenunciariam um processo cancerígeno anos antes, por exemplo. Esse projeto está em fermentação, mas é para mostrar que as possibilidades de estudo são inúmeras.

JC - São todos projetos contínuos, então? Calheiros - Sim, e são coisas que dão resultado porque seguem a ordem natural das coisas, as leis de Deus, as leis da natureza (...). Tenho a convicção de que ciência e tecnologia são fundamentais. Sem investimentos nesta área, não há movimento que dê resultado. Neste sentido, repito a frase que um ministro canadense disse certa vez a um militar brasileiro de alta patente. Ele disse “Major, tecnologia é soberania”. Acredito nisso. Quem não tem tecnologia, nunca vai ter soberania. Todos os países do mundo que se destacam hoje, têm muita tecnologia.

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