Em meio ao mundo aturdido em que estamos vivendo, poucos, pouquíssimos mesmo, se dão conta de que, as mil vezes alegadas liberdade de expressão, em que exemplo dos mais importantes consiste na alegada liberdade irrestrita da mídia, impressa ou eletrônica, e liberdade de opinião, garantem ao homem comum massa sem precedentes de informações, conferindo-lhe o privilégio de dispor dos elementos necessários à formação das suas opiniões. Na verdade, porém, as alegadas informações são, de fato, interferidas em medida deformadora, por propaganda levada a cabo por quem, na dimensão estratégica, dispõe dos meios e recursos próprios para, enganando o homem comum, conduzi-lo, sem resistência eficaz, à exploração a que está submetido, em escala planetária, por aqueles que transformam a informação em propaganda, e que são os manipuladores de um poder mundial que, por detrás de governos e governantes que lhes são submissos, submetem as nações alvos de sua cobiça e lhes vulneram a soberania. Por isso, leitor amigo, é que, nos acontecimentos internacionais, até aqui, tem havido, sempre, um “mocinho” e um “bandido”. Este último é sempre a vítima da cobiça a que já nos referimos e que, mais do que isso, ousa, ainda que timidamente, opor-se a ela. Agora mesmo, o brutal e injustificado massacre do Afeganistão e do Iraque dão-nos exemplos expressivos do que acabamos de afirmar. Mas, para que nos livremos da carga passional que envolve acontecimentos ainda em curso, seja-nos permitido dar exemplo que evidencia o quanto podemos ser enganados, de maneira desaforada, mas eficaz. Quantas vezes, por exemplo, terá ouvido o leitor afirmar-se que a Idade Média foi uma idade de trevas e terríveis crueldades? E que o período que se lhe seguiu, merece ser chamado de Renascimento? Ora; o que é que renasce, senão quem esteve morto ou, pelo menos, esteve em estado de letargia profunda? Mas, o que foi o medievo, senão o período em que prevaleceu, e em versão talvez até excessivamente vigorosa, o cristianismo? E o que é que existia antes dele, e decaíra apodrecido até às raízes, senão o paganismo?
Para que o leitor faça uma idéia de como nos desrespeitam a inteligência os adoradores e manipuladores do “deus” Mercado, diremos apenas que na “idade das trevas” foi que nasceu a idéia de Universidade; que todas as grandes universidades européias, ainda hoje existentes e reputadas, nasceram no medievo. Que assim foi com a Sorbonne que, à altura do séc. XIII já era freqüentada por cerca de 10.000 integrantes, entre alunos e professores, quando a população de Paris era da ordem de pouco mais de 200.000 habitantes. Que Oxford e Cambridge são medievais, como medieval é Salamanca, como o são Pádova, Heidelberg e Coimbra, para citar as mais importantes.
Que S. Fernando não foi outro senão o rei medieval Fernando III, de Espanha, como S. Luís foi o rei Luís IX, de França, como Sta. Adelaide foi viúva do imperador Odolão, a quem sucedeu no trono que, afinal, como exemplo da terrível brutalidade e selvageria medievais, podemos citar S. Francisco de Assis! Ocorre a alguém, hoje, sugerir algum dos atuais governantes como digno de merecer a glória dos altares? Talvez alguns dos que oferecem prêmios em dinheiro a quem mate seus adversários e seus descendentes?
No domínio das atividades intelectuais, Petrarca, o maior poeta lírico do Ocidente, foi medieval. Como o foi o maior filósofo do Ocidente, S. Tomás de Aquino, como o maior escritor do Ocidente, Dante Allighieri. É, ou não, desrespeitar-nos de mais? A razão para tanto desrespeito? A ética medieval condenava a atividade econômica tendo como objetivo o lucro, que era punido como pecaminoso e anti-social. Por isso, uma guerra contínua contra o medievo, e levada a cabo em nome da “liberdade”, de vez que a mesma ética condenava a prática desregrada de impulsos instintivos ligados à natureza animal do homem, prática que caracterizara, exatamente, os períodos de decadência a que foram levadas as civilizações pagãs, em nossos dias, de certo modo, ressuscitadas. Vale a pena refletir.
O autor, Jorge Boaventura, é colaborador do JC.