Tribuna do Leitor

Por onde andam as maçãs?


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Um momento de reflexão neste reinício das aulas.

Apesar dos quase vinte anos de experiência em salas de aula, nunca perdi o respeito pela forças que interagem dentro deste ambiente quase que sagrado. Mas este mesmo respeito que sinto por este espaço dedicado à construção do conhecimento, por vezes não é reciprocado por aqueles que o habitam, principalmente os alunos. O processo de desencantamento profissional que muitos professores atravessam é bastante preocupante.

Gostaria de iniciar esta reflexão com um acontecimento que ilustra um pouco do panorama educacional. A cena não deixa de ser comum: doze adolescentes em uma sala de aula em um instituto de línguas e o professor orquestrando diversas atividades visando promover a descoberta do conhecimento. Um ambiente diferenciado com poucos alunos por turma e dotado de toda a infra-estrutura tecnológica de última geração. Os pais ou responsáveis por estes alunos privilegiados pagam por um serviço e o professor esforça-se para executar seu trabalho. Em um crescendo, os adolescentes se animam com a aula e seu conteúdo.

A empolgação cresce. Aos poucos, o professor vai perdendo o controle da classe e cria-se o tão temido problema de disciplina. Erguem-se as vozes e o professor procura controlar a situação para que o trabalho tenha continuidade. Em vão. O professor ergue mais ainda sua voz. Sem efeito. O professor é ignorado. Um grito. Sem efeito. Desrespeitado. O professor berra, agora em total descontrole. Todos o olham, cessam a bagunça e o professor procura retornar a aula, já agora totalmente desconcentrado, desestimulado e desconstruído. Ao término da aula, o professor recorre a listagem de alunos da sala e telefona para todos os pais, explicando que durante a última aula tivera que repreender os alunos por problemas de disciplina e pede a compreensão e apoio deles.

Após a última ligação, o professor cai em si e questiona-se: o que foi que acabei de fazer? Desde quando um professor precisa justificar o comando da disciplina que procura exercer em sala de aula a fim de executar seu trabalho da melhor maneira possível? Por que tantos problemas de disciplina? Será que estamos desaprendendo nossa profissão ou nossa platéia está diferente? A realidade do professor hoje em dia é esta. Desgastado, sem autoridade e temeroso de exercer sua função de educador e disciplinador. Os tempos mudaram.

Alunos de 9 anos de idade lançam desafios: “Não vou fazer este exercício. Pode ligar para o meu pai. Ele é advogado. Irá processar a escola se eu for obrigado a fazer o que não quero.”

Adolescente de 11 anos: “Pode falar com minha mãe. Ela não vai acreditar em você e não vai fazer nada comigo. Vou continuar a fazer bagunça.”

Universitários: “Pode me reprovar. Vou entrar com mandado de segurança e cancelar a avaliação.”

O grande psicólogo russo Vygotsky coloca a instrução e o processo de mediação no cerne da construção do conhecimento do ser humano. Portanto, o professor está na alma da criação do conhecimento. Que alma judiada é esta!

Talvez os pais incapazes de colocar limites e disciplina a seus filhos sintam-se ameaçados ao ver outra pessoa assumir o papel de disciplinador. Vale a pena lembrar também que muitos pais carregam grande culpa por não poderem estar tão presentes na educação de seus filhos devido às atribulações da vida moderna. O professor disciplinador e colocador de limites passa então a representar uma ameaça. Uma simples tentativa de impor disciplina como a descrita acima pode ser deturpada pelos alunos e a narrativa entregue aos pais distorcida. Muitas são as repreensões que os professores sofrem ao tentar exercer sua função de educador.

Os pais que deveriam atuar em parceria com a escola passam a se antagonizar com os professores. A própria escola que hoje em dia parece estar mais preocupada em lidar com clientes do que com educandos passa a não dar apoio ao professor, que se vê acuado. Muitas são as histórias de professores que são obrigados a se desculparem frente à classe por haverem tentado impor disciplina. Tudo isso com a anuência dos pais.

Toda forma de relacionamento precisa ser construída sobre a plataforma da confiança. Os pais precisam confiar na escola e nos professores e deixá-los exercer sua função educadora. Sim, o diálogo é necessário mas essencial também é a confiança na proposta pedagógica da escola e nos seus profissionais.

O professor, figura central na educação, anda cansado e abatido. Este profissional que entrega o que ele possui de melhor aos outros, o seu conhecimento, e que por tantas vezes é desrespeitado e desacreditado. O profissional que recebia lindas maçãs vermelhas em sua mesa de trabalho como símbolo de admiração e carinho, hoje se vê desamparado pelas escolas, pais e alunos, e vítima da violência das periferias de nossas cidades. O vermelho das maçãs, foi trocado pelo vermelho de seu próprio sangue. Os jornais estão repletos de histórias de escolas e de seus professores vítimas da violência.

Desacreditados, desrespeitados, vamos trilhando nossa estrada na esperança que as macieiras do conhecimento voltem a dar frutos...

Rogério Sanches - RG 14.887.897

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