O posicionamento oficial da Igreja Católica com a aprovação do documento “Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais”, que foi elaborado pela Congregação da Doutrina da Fé, entidade localizada em Roma, precipitou uma série de reações no Brasil e em vários outros países. Considerado homofóbico e medieval por grupos de direitos humanos e entidades homossexuais, o documento determina que políticos católicos têm o dever moral de manifestar clara e publicamente o seu desacordo e votar contra projetos de leis favoráveis às uniões homossexuais.
O documento tem gerado uma série de críticas e reações. Uma delas é o questionamento do papel da religião na esfera política. Desde a Revolução Francesa, ocorrida em 1789, em que foi substituída a monarquia pela República, houve o princípio de separação entre Estado e Igreja. Com isso, ficou determinado que o exercício religioso é algo da esfera privada e não pública.
Pelo menos, essa é a visão do escritor anglo-indiano Salman Rushdie, que é o autor da frase que dá título a este artigo. Em 1989 o regime muçulmano fundamentalista do Irã decretou contra ele uma fatwa (sentença de morte) por considerar que ele blasfemou contra o islamismo no romance “Os versos satânicos”. Durante uma década, Rushdie viveu escondido. “O hábito de invocar a autoridade divina para legitimar preconceitos, perseguições e atrocidades é muito antigo, mas ressurgiu com força nos últimos tempos. A meu ver, é o problema central do mundo contemporâneo e não está de maneira nenhuma restrito ao universo islâmico”, afirmou em uma entrevista recente concedida à revista Veja.
A dificuldade de trabalhar com a diversidade é algo também marcante nas religiões ocidentais. No caso do Brasil, as religiões tradicionais e não-tradicionais têm sido marcadas por discursos conservadores, sectários, racistas e homofóbicos. A Igreja Católica, por exemplo, que foi marcada dos anos 60 a 80 por um discurso mais progressista como o da Teologia da Libertação, que era uma reação à extrema pobreza e à injustiça social, alterou significativamente o seu perfil quando posições mais conservadoras passaram a dominar a comunicação e ter mais visibilidade como é o caso do Movimento Carismático. Esse movimento conservador, dogmático e pouco preocupado com as questões sociais e diversidade, em sua essência apenas se preocupa com a experiência com o Espírito Santo. O principal discurso é a valorização do casamento, da virgindade e do sexo para procriação, condenando o uso de preservativos ou das diversidades sexuais.
Essa corrente que, atualmente, vem tomando com ênfase o universo católico, encontra muita semelhança com outras Igrejas como as evangélicas conservadoras, que são conjuntos de grupos protestantes que vivenciam um fundamentalismo cristão, ou seja, acreditam na infalibilidade da Bíblia. Aquilo que parecia quase impossível de acontecer como católicos e evangélicos serem tão parecidos em seus discursos acabou sendo real na atualidade com a adoção do fundamentalismo cristão. Outras características desses grupos são as constantes tentativas de transformação do Estado laico ou leigo em um Estado cristão. Por isso, desrespeitam continuamente a constituição do país fazendo ataques ferrenhos a grupos e segmentos sociais que não compactuam com as suas visões conservadoras e quase medievais de mundo.
O Ministério Público deveria agir com maior ênfase contra tais segmentos, pois nem mesmo a fé religiosa pode estar acima da Constituição e da garantia dos direitos sociais e humanos pregando o sectarismo, o racismo e a homofobia. Por isso, não é difícil concordar com Salman Rushdie quando ele diz que “a religião é um veneno em nosso sangue”.
O autor, Ricardo Alexino Ferreira, é jornalista e professor de Jornalismo Especializado na Universidade Estadual Paulista.