Eles trabalham uniformizados, num ambiente organizado, silencioso e sério. Mas, há pouco mais de uma semana, os funcionários de uma cooperativa de trabalho médico de Bauru quebraram totalmente a rotina e foram trabalhar fantasiados.
A criatividade e o desprendimento dos colegas foram o grande fator surpresa. Mas as cenas presenciadas foram um capítulo à parte. Imagine só uma supervisora distribuindo beijos como Marilyn Monroe? Ou uma tropa de peões encarando o atendimento ou um grupo de havaianas no setor de vendas?
Essa aparente “desordem” fez parte da Semana do Colaborador que é realizada há quatro anos com o intuito de promover a integração entre os funcionários dos diversos setores
Eliana Martini Tagliani, gerente de Recursos Humanos da Unimed Bauru, foi a responsável pela iniciativa. Todo ano? ela acrescenta algo diferente à semana que promove uma integração maior entre os colaboradores. Paralelamente, também é realizada uma gincana social que arrecada alimentos, leite, fraldas descartáveis para adultos, além de uma campanha de doação de sangue, já que este é período do ano mais difícil para o hemonúcleo de Bauru.
“A cada ano, preciso inserir uma novidade ao evento, que faça com que a gente saia da rotina. A idéia do dia da fantasia surgiu para verificar mesmo como as pessoas iriam reagir. Confesso que me surpreendi. Eu achei que todos fossem aderir, mas não tanto quanto aconteceu”, aponta Eliana, que foi fantasiada de vaqueira por ter uma reunião inadiável com a diretoria. Se não fosse o compromisso, ela confidencia que teria optado por algo mais ousado.
A gerente de RH ressalta que previa alguns bloqueios emocionais e fantasias paliativas, jamais imaginou que seus colaboradores incorporariam personagens. Afinal, todos lidam com pessoas ou extremamente sérias e tensas ou com problemas de saúde, seja com elas ou na família e até casos de extrema euforia como as mães pela primeira vez.
Mas ao contrário, a receptividade ao dia diferente pelos usuários, cooperados e fornecedores foi das melhores.
Os atendentes, que trabalham diretamente como público e formam literalmente a comissão de frente da cooperativa, optaram por uma fantasia de cowboy para não perderem o tom de uniforme e não chocar tanto o usuário. Cartazes explicavam o motivo da novidade, mesmo assim muita gente entrou no clima e brincou.
“Teve usuário que perguntou se nós íamos para Barretos e como era véspera de feriado já tínhamos ido trabalhar prontos”, diverte-se a atendente Patrícia Gosalbes Fernandes.
Espírito da coisa
Nas fantasias mais inusitadas, a vaquinha com direito a tetas e tudo, que trabalhou no setor de informática garantiu a popularidade a Alessandro Martinez de Camargo, que tinha escolhido uma fantasia black power, mas quando a equipe o viu provando a fantasia bovina na loja de aluguel de trajes se empolgou. “Eu experimentei a roupa por gozação e ficou legal. Aí não teve jeito, foi um consenso. E gozação o dia inteiro.”
O colega de Jorge Yuri de Lion Yamane, que pelas próprias características fantasiou-se de ninja, foi um dos que mais se divertiu ao olhar para o lado e ver uma vaquinha do computador. “Levou metade do dia para me acostumar. O nosso chefe que chegou de viagem e não sabia da missão também se assustou. Foi muito legal.”
Muitos colaboradores, que geralmente são mais sérios e compenetrados, tiraram os amigos do sério.
As sete moças que dividem uma unidade de trabalho transformaram o espaço na Casa dos Sete Homens, com direito a tipos clássicos como o Gordo e o Magro.
Como ‘dono-do-dinheiro’, o gerente de contas médicas Walter Higa fantasiou-se de sheik. Pela integração do grupo foi o primeiro sheik japonês da história. “Confesso que achei bonita a fantasia, mas dinheiro eu não tenho”, brinca e revela que as fantasias amenizaram a tensão do trabalho.
Ao contrário do supervisor de pagamento de recursos, Cláudio Teures de Oliveira, que já incorporou o papel de Fred Flintstone desde uma atividade do ano passado e precisou repetir a dose a pedido dos colegas. “Essa fantasia é sua!”, disse uma amiga. Até os médicos imitaram o Barney para chamá-lo.
O auxiliar administrativo José Ademir Cazo surpreendeu ao aparecer de mago Merlin, com direito a gorro de estrelas e uma roupa azul céu que se destacava. Se tivesse poderes mágicos, ele revela que traria sossego e prosperidade para todo mundo. “Mas não daria para trabalhar fantasiado todo dia, pois aí eu não teria sossego mesmo”.
Quem não deu sossego para ninguém foi a supervisora de desenvolvimento organizacional Marilda Luiza Brandão, que passou o dia distribuindo beijos à distância com a boca vermelha da atriz hollywoodiana Marilyn Monroe.
“Era para soltar a imaginação, não era? Então, como loira eu nunca vou ser, muito menos sexy, era a minha chance! Afinal, o dia permitia que cada um mostrasse um lado que geralmente não é mostrado. Como eu gosto de coisa glamourosa, encarnei uma Marilyn e até esqueci que era a Marilda, abracei até os médicos como se fosse atriz.”
Os colegas entraram no clima e levaram até um ventilador para que ela repetisse a cena no metrô do filme “O Pecado Mora ao Lado”.
O desafio agora é superar o sucesso no ano que vem.