Iacanga - Nas eleições municipais de 1992, o discurso de um candidato a vereador mudou a história política da cidade de Iacanga (45 quilômetros ao Norte de Bauru). Gente tronco, na linguagem “caipira”, o agricultor Benedito Aparecido criou, quase que por acaso, duas facções políticas na cidade: os Pica-paus e os Aroeiras.
História semelhante aconteceu em Ubirajara (60 quilômetros a Sudoeste de Bauru). No mesmo ano, a população ficou dividida entre os Pés-Vermelhos e os Tcha-tcha. A política “matuta” cria situações inusitadas e personagens folclóricos que marcam a história na região.
Os Pica-paus e Aroeiras nasceram num comício realizado na rua 9 de julho, na cidade de Iacanga, em 1992. Benedito Aparecido que é conhecido pelo apelido de “Dito Quintiliano”, estava no palanque com seus companheiros de chapa e resolveu fazer uma comparação para mostrar que o seu partido, o PMDB, estava forte naquele pleito. “Não vem não pica-pau, que é aqui é aroeira.”
A comparação inocente e própria de quem vive na roça foi interpretada pelos correligionários e adversários que presenciavam o comício como sendo um afronto, lembra Dito Quintiliano. “Eu falei sem pensar, mas eles levaram tão a sério que a cidade passou a ficar dividida.”
Ele explica que se intitulou aroeira porque é a única madeira que o pica-pau não consegue furar. “A madeira é tão forte que o bico dele entorta se ele tentar”, comenta o agricultor com seu palavreado próprio.
Como a madeira, o candidato se tornou forte após o discurso e ganhou a eleição. “Fui eleito vereador em 92 e em 96. Fiquei conhecido como o autor da expressão que até hoje é repetida por todos os moradores”, se vangloria com simplicidade.
Em 2000, Dito Quintiliano desistiu da política e foi cuidar de suas propriedades rurais. “Do jeito que as coisas estão, vou ter que apoiar os Pica-paus. O atual prefeito tem ajudado muito a população e eu tenho que dar a mão à palmatória.”
“Conosquinho”
O vereador Benedito Aparecido recebeu novo apelido ao freqüentar o Gabinete do governador, da época Orestes Quércia (PMDB). “Eu visitei o Quércia e o (Luiz Antônio) Fleury (PTB) muitas vezes. Fui em busca de verbas para realização de obras na cidade. Lá, eles me chamavam de chapéu branco, porque eu trocava o chapéu de palha por um especial para essas visitas”, comenta feliz.
O ex-vereador relembra com saudade sua passagem pela política. “Eu sempre fui muito estimado. Em todas as visitas eu levava queijos de Quilombo para eles, fazia um agrado.”
À boca pequena, corre uma história que ninguém prova, mas que todos garantem ser verdade. Dizem que em uma das visitas a um governador de Estado, foi oferecido um café para Dito Quintiliano. A secretária convidou: “Vamos tomar um café conosco?” Como resposta teria recebido a “pérola”: “Vamos, sim, tomar um conosquinho”. O então vereador achou que “conosco” era a marca do café.
Em uma única vez, o agricultor foi para Brasília. “Eu fui do mesmo jeito que sou, usando botina, chapéu e procurei ser autêntico”. Sua passagem pela política rendeu um poço profundo para o bairro de São Vicente, em Iacanga, um posto de saúde para o distrito de Quilombo, dentre outras obras.