Ubirajara - A história política da cidade de Ubirajara é recheada de fatos que ilustram bem a briga nas bases “caipiras” da região. Nos idos de 70, os candidatos da antiga Arena e MDB se degladiavam em público. Os comícios marcados na cidade no período noturno quase nunca aconteciam porque a oposição tratava de cortar a energia elétrica da cidade, inviabilizando o evento.
Passados mais de 30 anos, as divergências políticas ainda geram situações inusitadas. Nas celebrações religiosas, a turma dos Pés-vermelhos sentam de um lado da igreja, enquanto os Tcha-tcha se acomodam de outro.
Os anos eleitorais são de muita movimentação na pequena Ubirajara, segundo o vice-prefeito Wilson Ferrari. “A população é bem politizada. Nos finais de tarde, eles se reúnem para discutir política. Isso acontece muito na época da eleição municipal.”
É na praça e nos bares que as pessoas mais idosas colocam suas idéias sobre determinado candidato. “É assim que nascem as discussões políticas.” Fora do período eleitoral, a população cobra dos eleitos suas promessas, confessa o vice. “Eles acompanham os atos da prefeitura e da Câmara.”
No último pleito municipal, em 2000, a energia elétrica não foi cortada, mas houve infiltração de adversários nos comícios, lembra um morador. “No comício da situação, a oposição colocava gente com bonés do seu candidato para tumultuar e confundir o eleitor.”
No camarote
O agricultor aposentado Sebastião Guerra assiste de camarote a disputa política em Ubirajara. Nos seus 83 anos, 31 na cidade, ele relembra de fatos que comprovam que a política “caipira” cria fatos e personagens inusitadas.
Guerra diz que senta no banco da praça todo final de tarde e dali fica observando o comportamento das pessoas. A disputa política promove umas “encrenquinhas”, diz o antigo morador. “Entre uma pinga e outra, o povo discute política. Esse negócio de pé-vermelho e tcha-tcha é briga de poder. As pessoas querem mostrar que são os poderosos. Isso tem que acabar. Aqueles que encabeçavam essa divisão já morreram.”
Segundo ele, muitas vezes as discussões de idéias geram agressões físicas. “A política é muitas discutida. No período eleitoral, há casos de pessoas que se agridem.” Cuidadoso para não citar nomes, ele acredita que a próxima eleição não vai atrair tanta polêmica. “Os candidatos que apareceram até agora são mornos”, avalia.
História
A história de pé-vermelho e tcha-tcha surgiu nas eleições de 92. Pé-vermelho era a turma daqueles que defendiam a dignidade no trabalho público, na administração. Tcha-tcha foi uma denominação “caipira” encontrada pelos moradores para intitular o candidato que a população tinha como “ladrão”.
A expressão tcha-tcha, de acordo com a população, é o barulho feito pelo rato para roer milho no paiol. O nome dos candidatos envolvidos na história não foi revelado pelos moradores, que temem ser perseguidos. “Aqui há muita perseguição e discriminação”, disse um morador.