Cultura

Choro na prisão

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 3 min

Não, não são lágrimas de arrependimento, muito menos de crocodilo o choro que se pode ouvir nos corredores de um dos presídios de Bauru. É chorinho de verdade.

Detentos da Penitenciária Um (P1), Diógenes (percussão), Serginho (cavaquinho), Aloizio (violão de seis cordas), Sidney (bandolim), Paulo César (pandeiro) e Sérgio (bandolim e violão de sete cordas) formaram o grupo “Saudade da Época de Ouro” e mantêm vivo, mesmo que detrás das grades, um dos gêneros musicais mais brasileiros que existe.

A maioria dos integrantes do “regional” já tocava algum instrumento antes de formar o grupo, que nasceu em março deste ano.

Sérgio, que aprendeu música desde os 9 anos, resolveu unir os companheiros de raio e hoje é o responsável pela transcrição das músicas tiradas de ouvido em partituras para cada um dos instrumentistas e na coordenação dos ensaios diários.

O primeiro companheiro arregimentado por ele foi Sidney, que tocava cavaquinho num grupo de pagode formado dentro da P1. Por sua vez, Sidney ensinou para Serginho. Depois veio o Paulo no pandeiro, depois o Diógenes e o Aloizio.

Com uma formação musical privilegiada, o líder Sérgio conta que no início queria “desvirtuar” o companheiro pagodeiro, mas não foi difícil conseguir fazer com que os colegas o ouvissem e começassem a gosta de Pixinguinha, Waldir Azevedo e Jacob do Bandolim. Hoje, os músicos são exclusivos do grupo, mas quem toca nas missas ou cultos têm permissão divina. Mas todos se sacrificam para tocar os instrumentos pouco comuns e até emprestados dos irmãos da igreja.

A primeira apresentação oficial do grupo foi no Dia das Mães para os visitantes do presídio e a segunda foi realizada durante uma visita da reportagem do JC para uma outra matéria, quando o grupo pediu licença para mostrar o trabalho. Hoje, talvez tenha show na P1 de novo, em homenagem aos pais.

Lamento

Literalmente, é pena que Sérgio e um outro companheiro do grupo ainda tenham cerca de dez anos de reclusão a cumprir, pois o “Saudade da Época de Ouro” faz música de primeira qualidade, mesmo sem grandes recursos ou instrumentos de excelente qualidade. Eles são afinados e fazem da música um lamento capaz de arrepiar e arrancar além de aplausos, o choro da platéia.

É pena saber que na condição de detentos, só um juiz pode sentenciar a liberdade de um show fora das grades.

“O nosso objetivo é mostra para a gente mesmo que temos competência para algo de bom. Sabemos que erramos e estamos na prisão para pagar por isso. Mas quando a gente sair a gente quer mostrar que conseguiu fazer alguma coisa muito boa”, reflete Sérgio, que sonha em poder tocar fora do pátio ou produzir algum trabalho que faça história mesmo dentro da prisão.

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Regional

O chamado “regional” nasceu em 1930, era um grupo formado por dois ou três violões, cavaquinho, pandeiro e um solista (flauta, bandolim, etc) e era pau para toda obra. Um grupo que não precisava de arranjo escrito e acompanhava até o que não conhecia. É mais ou menos isso, que os detentos fazem.

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Repertório do show

• “Carinhoso”, de Pixinguinha

• “Pedacinho do Céu”, de Waldir Azevedo

• “Vê se Gostas”, de Waldir Azevedo

• “Ave Maria”, de Gounoud com adaptação de Jorge Aragão

• “Simplicidade”, de Jacob do Bandolim

• “Noites Cariocas”, de Jacob do Bandolim

• “Língua de Preto”, de Honorino Lopes

• “Matriz ou filial”, de Lúcio Cardim

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