Economia & Negócios

Artigo: O rabino, os juros e a taxa Selic


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É uma tradição na religião judaica que os rabinos são considerados detentores de sabedoria fora do comum. É por isto que muitas vezes são procurados para resolver questões de disputa entre os membros da colônia.

Conta-se que numa pequena cidade no interior da Polônia dois judeus procuraram o rabino para pedir a sua ajuda na solução de uma disputa difícil. Tratava-se de uma questão de juros excessivos que um banqueiro tentava cobrar de seu cliente.

O banqueiro apresentou seu caso defendendo os juros altos cobrados e o rabino depois de alguns segundos disse a ele: “você tem razão”. O banqueiro, satisfeito, esperou que seu cliente apresentasse a sua própria versão. O rabino ouviu atentamente enquanto o devedor mostrava o absurdo dos juros altos pretendidos pelo banqueiro. Pensou e emitiu sua opinião: “você também tem razão” e com isto dispensou os dois, desejando-lhes boa sorte.

Depois da partida dos dois querelantes o ajudante do rabino que a tudo assistira, não resistindo à sua perplexidade, disse ao rabino: “mestre, com todo o respeito pela sua sábia decisão devo dizer que na minha opinião não é possível ambos os adversários estarem com a razão”. O rabino alisou sua longa barba branca, franziu a testa por alguns segundos e disse: “você também tem razão”. Colocou seu chapéu negro de abas largas e foi para sua casa. Tudo isto passou no longínquo século XVIII na Polônia, onde nunca se ouviu falar em juros Selic ou Copom.

A História se repete. A discussão que ocupa as manchetes dos jornais diariamente é sobre a taxa de juros. Temos economistas de grande renome que afirmam com total convicção que a taxa de juros deve permanecer alta e seria uma catástrofe baixá-la neste momento. Argumentam que a queda de juros resultaria em fuga de capitais, aumento do dólar e impossibilitaria ao Governo “rolar” sua dívida. Em médio prazo teríamos a volta da inflação e de todos os males que a acompanham. O Governo deve ser firme e manter as taxas nas alturas. Sem dúvida alguma eles têm razão.

Por outro lado, um grupo de empresários e políticos não menos respeitáveis enuncia com igual firmeza que a atual taxa elevada de juros levará o País para o abismo e urge reduzi-la imediatamente. A alta taxa de juros encarece o crédito tão necessário para permitir novos investimentos. Encarece também o crédito ao consumidor reduzindo cada vez mais a sua capacidade de compra. Resulta então a queda do desenvolvimento econômico. O PIB não cresce, a arrecadação do Governo encolhe e não haverá recursos para os programas sociais. Muito menos para as obras imprescindíveis de infra-estrutura que o País tanto necessita. Tudo é verdade e evidentemente eles também têm razão.

Há aqueles que afirmam que o juro Selic - que pode ser determinado pelo Governo - não é o verdadeiro vilão da história. O verdadeiro vilão é o “spread”.

O “spread” nada mais é que a soma dos custos que os bancos incorrem ao transferir o dinheiro de poupadores para tomadores de empréstimos, adicionando-se também os seus lucros. Nos custos estão incluídas as despesas com captação, tributos que incidem sobre operações financeiras e - não de menos importância - o custo do risco de inadimplência. Lamentavelmente, os bancos são obrigados a cobrar dos bons pagadores tudo que os maus pagadores deixam de pagar.

Interessante é que aqueles que culpam o “spread” pelo alto custo do dinheiro também têm razão. E o mais importante de tudo é que todos concordam com isto. Os defensores de altas ou baixas taxas de Selic também são unânimes em recomendar uma diminuição imediata dos “spreads” cobrados em empréstimos. O que fazer então?

No livro “A Riqueza das Nações”, publicado em 1776, Adam Smith já mostra que o preço de uma mercadoria depende da oferta e da demanda e é desnecessário dizer que o preço de um empréstimo não foge desta regra. Mas muito mais relevante do que isto é que a regra só vale para mercados livres, onde, em caso de uma grande demanda, existe a possibilidade de entrada de novos participantes, aumentando a oferta existente.

O problema é que o mercado de empréstimos no Brasil está longe de ser um mercado livre. O setor é severamente regulamentado, garantindo exclusividade aos agentes financeiros na concessão de empréstimos. As barreiras de entrada nesse segmento são altas e protegidas não só por lei, mas pelo próprio Banco Central.

Talvez esteja na hora estudar maneiras de ampliar o número de participantes desse tão restrito mercado financeiro. É claro que não se trata de permitir a entrada de aventureiros que possam prejudicar a poupança popular. Mas, sem dúvida, haverá muitos capitalistas que perceberão a grande oportunidade de um mercado com demanda forte e oferta restrita a um pequeno número de participantes.

O rabino poderia até sugerir a constituição de um grupo de trabalho que estudaria as medidas necessárias para a liberalização dos mercados financeiros brasileiros. E quem sabe, talvez até o próprio rabino concordaria em participar de um estudo tão importante. Desde que as reuniões não sejam no shabath.

Georges Hegedus é doutor em finanças Pela FGV, empresário e foi diretor-tesoureiro do Secovi-SP, o Sindicato da Habitação.

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