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Sem-teto vão à CEF para comprar casa

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 5 min

Em reunião realizada ontem de manhã com famílias de sem-teto do Jardim Ferraz, a vereadora Maria Majô Jandreice (PC do B) informou que o proprietário das 21 residências ocupadas pelo grupo rejeitou a proposta de aluguel dos imóveis.

Diante da negativa, o grupo resolveu apresentar nova proposta. Agora, eles querem comprar os imóveis. Mas antes de levar a proposta ao proprietário dos imóveis, a vereadora deve procurar hoje a Caixa Econômica Federal (CEF) para saber da possibilidade de financiamento dos imóveis ocupados. A vereadora foi escolhida pelas famílias para intermediar a negociação. Embora alguns dos sem-teto estejam trabalhando e tenham carteira assinada, outros estão desempregados ou vivem apenas de “bicos”. De acordo com a vereadora Majô, o proprietário das casas considerou muito baixo os valores propostos para o aluguel.

Ele teria informado, por meio de seu advogado, que pretende reformar os imóveis para depois vendê-los ou então para poder alugar por um valor maior do que o sugerido pelos sem-teto. O JC não conseguiu contato com o advogado nem com o proprietário das 21 casas para comentar o assunto.

“O único compromisso que o proprietário assumiu é de não despejar (as famílias) de uma hora para outra. Ele daria um tempo até que todos pudessem sair”, disse ela. “Não queremos nada de graça. Se o proprietário não aceita alugar, vamos tentar comprar essas casas”, disse Oswaldo de Deus Silva, presidente da Associação dos Sem-Lares de Bauru (Aslab).

De acordo com Silva, os imóveis começaram a ser ocupados há cerca de um ano e dois meses. Ele foi o primeiro a chegar. Em seguida, vieram as outras famílias. Segundo ele, quando as residências começaram a ser ocupadas, muitas apresentavam problemas e precisaram ser reformadas pelos sem-teto.

“Quando chegamos, as casas estavam danificadas. Nós trocamos a fiação e os vidros quebrados”, relembra Silva. “Além disso, muito coisa havia sido roubada. Algumas casas não tinham torneiras e nem pia. Tivemos que comprar tudo”, relata.

De acordo com o sem-teto Cléber Teodoro, a casa que ele ocupa há cerca de um ano ganhou até pintura nova. Ele reside no local com a mulher e dois filhos pequenos, de 1 e 2 anos de idade. “Só não melhoramos ainda mais os imóveis por causa desse impasse com o proprietário”, contou o presidente da Aslab.

“O que nós fizemos não foi uma invasão, mas sim uma ocupação”, classificou ele. Silva argumenta que as casas estavam abandonadas e as famílias não tinham onde morar.

Na opinião de outro sem-teto, o professor de capoeira Ivan Cristiano Teodoro, a ocupação ajudou a combater o consumo e a venda de entorpecentes no bairro. Segundo ele, os imóveis vazios eram usados por consumidores de drogas.

De acordo com a vereadora Majô, o dono das residências estaria disposto a recompensar os sem-teto pela melhorias deixando-os ficar um pouco mais no local, até que encontrassem um outro lugar para morar.

Engrossando a fila

A quantidade de famílias que não tem onde morar poderá aumentar nos próximos dias, em Bauru. No Jardim Mendonça, a falta de dinheiro para pagar o terreno fez com que o antigo proprietário iniciasse o processo de retomada do imóvel.

Mãe de oito filhos, a dona de casa Magda Aparecida Almeida Santos, 34 anos, espera por ajuda do poder público ou da vizinhança para não ficar na rua.

O marido está desempregado e o pouco que a família possui está sendo guardado dentro da garagem de uma amiga do bairro. Eles temem que o proprietário do terreno dê a ordem, a qualquer momento, para que o barraco onde moram seja destruído.

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Família vive com R$ 240,00 por mês

O catador de papelão Rosivaldo Ferreira da Cruz, 30 anos, foi o segundo a ocupar uma das casas que estavam vazias na quadra 26 da rua Tamandaré, no Jardim Ferraz. Ele chegou logo depois de Oswaldo de Deus Silva, que hoje é o presidente da Associação dos Sem-Lares de Bauru (Aslab).

Casado com a manicure e pedicure Vera Lúcia dos Santos Lopes, 34 anos, Cruz chegou ao bairro acompanhado também pelos quatro filhos: Reginaldo, 12 anos; Marcelo, 9 anos; Natália, 3 anos; e Mateus, 2 anos. Antes de fazer parte do grupo de sem-teto, Cruz disse que morava com um irmão no Jardim Nova Paulista. Assim como outros sem-teto, Cruz disse que precisou consertar os vidros e a fiação elétrica da residência que escolheu para morar. Segundo ele, para restabelecer o fornecimento de energia e para evitar que a água também fosse cortada, a família teve de pagar várias contas atrasadas.

A renda do casal não ultrapassa os R$ 240,00 mensais. Enquanto Cruz recebe em média R$ 45,00 por semana com a venda do papelão que recolhe nas ruas da cidade, sua mulher ganha outros R$ 15,00 por semana com os serviços de manicure e pedicure.

“Assim a gente vai sobrevivendo. Sem conforto, com os armários vazios e com os filhos para criar”, reclama Cruz, que em pouco tempo poderá ficar também sem casa, se não houver um acordo com o dono dos imóveis. (AC)

União aos sem-terra

Três famílias de sem-teto acampanhas no Centro Comunitário do Jardim Ferraz após serem despejadas das casas que ocupavam no bairro estudam a possibilidade de se juntar aos sem-terra Novos Canudos, que estão em áreas localizadas em Iaras e Borebi.

Acampadas há sete meses no centro comunitário, as três famílias, que enfrentam até a falta de alimento, buscam auxílio da comunidade para arrecadar cestas básicas.

Waldemar Pereira da Silva, que está acampado no centro comunitário, explica que, para juntar-se aos sem-terra, os sem-teto precisam garantir, por dois meses, seu próprio sustento.

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