Os satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) já registraram este ano 76 focos de incêndio em Jaú (47 quilômetros a Leste de Bauru). O número representa um aumento de 162% em relação ao mesmo período de 2002 e transforma a cidade na segunda do Estado em ocorrências, atrás apenas de Morro Agudo.
O pesquisador do Inpe, Alberto Seltzer, afirma que o município costuma apresentar grande quantidade de queimadas por causa das plantações de cana-de-açúcar. Entre janeiro e início de agosto do ano passado, foram 29 focos de incêndio, deixando a cidade em sexto lugar no ranking estadual.
O tenente do Corpo de Bombeiros de Jaú, Osmar Amaro dos Santos, acredita, porém, que o acréscimo de 162% nas queimadas não está relacionado com a cana-de-açúcar. “A área de plantio não se altera, é mais ou menos fixa. A tendência é de que aconteça, inclusive, uma certa redução por causa da mecanização da colheita”, opina.
Além da substituição da força humana pelas máquinas, o fim das queimadas está previsto em uma lei aprovada em setembro de 2002 pela Assembléia Legislativa de São Paulo. O texto determina que a mecanização da colheita precisa estar concluída até 2031.
Para Santos Júnior, a origem do aumento de ocorrências está na estiagem. “No ano passado, ela foi interrompida mais cedo. Agora, está mais seco e a umidade do ar está mais baixa”, declara.
Seltzer faz a mesma relação, mas aponta outros fatores. “Um deles é o aumento de desmatamento. Em 2002, ele chegou a 25 mil quilômetros quadrados só na Amazônia. Também existe a falta de fiscalização”, opina.
Ele lembra ainda que os focos de incêndio são iniciados pelo próprio homem. “Nessa época do ano, não temos queimadas naturais, que acontecem quando cai um raio, pois não está chovendo muito”, afirma.
O pesquisador revela também que o aumento dos focos de incêndio é um fenômeno nacional. Neste ano, já são cerca de 143 mil casos, contra 51,5 mil no mesmo período do ano passado. No Estado de São Paulo, houve um salto de 1.884 para 3.630 ocorrências, quase o dobro.
Apesar dos números, Seltzer acredita que o problema já foi pior. “Há 15 anos, não se reconhecia que haviam queimadas. Era um assunto para o qual não se dava importância. A gente inverteu esse ciclo e, hoje, elas são vistas como prejudiciais ao meio ambiente. São consideradas como algo negativo e que precisa ser eliminado”, declara.
Para ele, o que falta, agora, é atingir esse segundo estágio. “Existe essa cultura do fogo que ainda é muito presente no nosso País e, por isso, é difícil eliminá-las”, diz.
O Inpe considera como queimada qualquer foco de incêndio que tenha pelo menos 30 metros de extensão por meio metro de largura. O instituto disponibiliza, através da Internet, um amplo banco de dados sobre o assunto. “Para cada foco, é possível localizar as coordenadas e o horário em que ele ocorreu”, afirma Seltzer.
Uma realidade que o Corpo de Bombeiros de Jaú não compartilha, já que precisa ser notificado de um caso para computá-lo, o que nem sempre ocorre. “Muitas vezes, não somos nem acionados. A usina ou o fazendeiro, para preservarem as suas plantações, preferem dar combate ao fogo por conta própria. Só somos chamados quando o incêndio coloca em risco a casa ou o animal”, revela o tenente Santos Júnior.
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Clima seco
A meteorologista do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, Zildene Pedrosa de Oliveira Emidio, afirma que a estiagem pode ter realmente contribuído para o elevado número de focos de incêndio. “Passamos por um momento de bastante seca. Estávamos em um período sem chuvas e baixa umidade, o que acaba favorecendo”, diz.
Ela acredita que a chuva da última semana não resolve o problema de vez. “Ainda não deu para o solo restabelecer toda a umidade. Secando mais, já volta a ter a incidência de novas queimadas”, prevê.
Ela lembra que o inverno é, naturalmente, favorável aos focos de incêndio e que, mesmo com a chegada da primavera, em setembro, o clima seco continua. “No início, ela tem algumas características de época seca. À medida que os dias forem passando, começam a aparecer as características de verão, com pancadas de chuva, e esses focos, literalmente, acabam”, revela.