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A grande mentira


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Sufocar uma mentira é difícil. Sobretudo quando adquire notáveis proporções e acarreta graves conseqüências cujos efeitos persistem ao longo do tempo. A imprensa anglo-saxônica vem se interessando, com crescente intensidade, pela mentira (atualmente incontestável), pela qual agora o presidente George W. Bush e o primeiro-ministro Tony Blair respondem, sobre a questão das armas de destruição em massa que supostamente Saddam Hussein possuía, e que serviu de justificativa primordial para o ataque anglo-norte-americano contra o Iraque.

O propósito de criar uma “nova ordem democrática” no Oriente Médio, sob domínio norte-americano, agora aparece como um projeto carente de viabilidade e solidez. As ameaças que pairam sobre Irã e Síria, caso se intensifiquem, não farão mais do que piorar as coisas. O retorno obrigado a um certo multilateralismo, simbolizado pelas Nações Unidas, surge como o melhor - se não o único - recurso de que se dispõe para evitar muitas conseqüências desastrosas, por outro lado perfeitamente previsíveis. O período que resta para as eleições norte-americanas diminui e Bush não pode deixar de prestar atenção ao vai-e-vem de seu eleitorado, que começa a demonstrar seu descontentamento.

Foi precisamente coincidente com a intenção de Blair de voltar-se para um multilateralismo sensato - com a recente realização de uma conferência em Londres para relançar uma “segunda onda” de sua “terceira via” -, que estourou o trágico escândalo da morte do cientista David Kelly. Realmente, a misteriosa morte de Kelly, que trabalhava para o Ministério da Defesa britânico, parece relacionada, involuntariamente, com a manipulação dos informes sobre as armas de destruição em massa supostamente em poder de Saddam Hussein, dos quais se serviu Blair, através de seu assessor de comunicação, Alastair Campbell, para justificar a necessidade da “guerra preventiva” contra o Iraque, já que - como disse -o ditador poderia utilizar armamento biológico no prazo de 45 minutos.

Nos EUA, os democratas começam a questionar, pela primeira vez, as falsas acusações de Bush sobre o urânio que Níger teria vendido a Saddam e as armas de destruição em massa que poderiam ser lançadas em 45 minutos, o que representa outra falsidade.

Em política, mentir conscientemente constitui uma falta grave, especialmente quando a mentira serve para justificar uma decisão que tem a ver com a guerra e que pode ser a responsável pela morte de muitos milhares de vítimas inocentes.

A imoralidade da trapaça no jogo de cartas, onde são representadas as efígies dos cúmplices de Saddam, para que morram sem processo nem julgamento, em um país que - afirma-se - avança pelo caminho da paz e da reconstrução democrática, é espantosa. Os incluídos nele são paulatinamente eliminados à medida que são descobertos. É tão impactante que não faz mais do que agravar uma situação por si só indefensável e que significa um verdadeiro retrocesso da civilização. Muita gente não entendeu.

A história nos ensina que muitas vezes a verdade demora para impor-se. Mas a cidadania diz a verdade, e esta, como o azeite, sempre sobe para a superfície da água. Impõe-se indefectivelmente às consciências bem formadas.

O autor, Mário Soares, foi presidente de Portugal entre 1986 e 1996.

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