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Entrevista da semana: Mundial é novo desafio para Sabino

Da Redação
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Após as homenagens recebidas em São Paulo e Bauru, o judoca Mário Sabino Júnior, medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos, descansará por uma semana do desgaste sofrido em Santo Domingo, mas com a mente e o corpo voltados para o que considera seu grande desafio este ano. O atleta vai disputar o Mundial de Judô, a partir do próximo mês, em Tóquio, no Japão.

Sabino, que começou a lutar com apenas 5 anos de idade, no Sesi, por influência de seus familiares que sempre estiveram ligados ao esporte, contou à reportagem do Jornal da Cidade a emoção de disputar pela primeira vez o Pan e sobre a conquista inédita da medalha de ouro. Falou também do ambiente dos Jogos Pan-Americanos e quais são as perspectivas para o próximo compromisso no Japão.

Jornal da Cidade - Como você recebeu essa conquista inédita da medalha de ouro? Mário Sabino Júnior - Com surpresa, por causa das dificuldades até chegar à medalha de ouro, mas estou feliz e muito emocionado com essa conquista.

JC- Na sua opinião, qual o momento mais difícil que você enfrentou nos Jogos Pan-Americanos? Sabino - O momento mais difícil sem dúvida foi a final, por ser o meu primeiro Pan e também por enfrentar o canadense Nicholas Gill, que é um atleta olímpico com duas medalhas em Olimpíadas e muita experiência em finais.

JC- Você sabia que no dia da sua final o Brasil disputava o terceiro lugar no quadro de medalhas com o Canadá, país do seu adversário? Sabino - Eu sabia, sim, o que aumentou ainda mais a minha responsabilidade. Mas por outro lado, me fez sentir uma vontade maior de ganhar o ouro e ver o meu País terminar o dia no terceiro lugar no quadro geral de medalhas.

JC - Fale sobre sua campanha desde a primeira luta até a final do Pan. Sabino - Os principais lutadores da América do Sul estavam na minha chave, eram nove atletas no total. No sorteio das chaves eu tive sorte e os dois favoritos ao título, o canadense e o cubano, tiveram que se enfrentar durante a semifinal.

JC - Quantas lutas você disputou até chegar à final? Sabino - Foram duas lutas bem difíceis até a final. A primeira por ser a estréia e também com um lutador da República Dominicana. Foi bem complicado, eu optei por fazer uma luta tática, forçando meu adversário a tomar todas as penalidades possíveis enquanto acabei tomando apenas uma penalidade e, ao término da luta, venci por pontos. A segunda luta foi contra um atleta de Porto Rico, inclusive eu já o havia vencido este ano aqui no Brasil. Eu consegui aplicar um ipon (golpe principal do judô) e finalizei em 30 segundos, me credenciando para a final.

JC - Como foi a final contra o seu principal adversário? Sabino - O Nicholas vem sendo mesmo o meu grande adversário. A luta começou truncada e nervosa, eu tomei uma penalidade e estava perdendo. Mas eu consegui empatar porque o canadense não queria lutar e estava “segurando”. Ao término dos cinco minutos do tempo permitido, os juízes determinaram o empate, com isso, tivemos que disputar o gold escore (ponto de ouro: quem aplica o primeiro golpe valendo ponto é o vencedor). E no último minuto do tempo extra, eu consegui aplicar um sotogari, que é o primeiro golpe que a gente aprende no judô, e meu golpe preferido.

JC - Como foi lutar a final com uma contusão no punho direito? Sabino - Além da contusão no punho que surgiu antes da final, eu também estava sentindo bastante o tornozelo, devido ao excesso de treinos. A lesão no punho direito me incomodava um pouco, mas a minha pegada e reflexo não foram atingidos.

JC - Você teve que tratar a lesão com medicamentos. Não teve receio de ser flagrado no exame anti-doping? Sabino - Eu fiquei um pouco preocupado, ainda mais com o caso da Maurren Maggi, mas os médicos da delegação brasileira tomaram todos os cuidados possíveis e me passaram medicamentos que não representavam perigo.

JC - O que você acha do doping no esporte? Houve algum caso no judô? Sabino - No judô, não, mas eu fiquei sabendo de um caso no atletismo feminino, que deu excesso de cafeína.

JC - Você já tomou algum medicamento suspeito para melhorar seu rendimento? Sabino - Nunca tomei e não acho que um atleta precisa disso para vencer no esporte. Ele precisa de disciplina e força de vontade.

JC - Falando agora sobre o Pan, em relação à estrutura e organização, qual a sua avaliação? Sabino - Pelo que eu percebi, eles tentaram reconstruir a cidade e fazer os ginásios, mas viram que não ia dar tempo de fazer as duas reformas e optaram por construir somente os ginásios, campos e a Vila Olímpica. O ginásio das disputas do judô era bem quente, mas ninguém reclamou que faltou equipamento ou materiais para a realização das modalidades.

JC - Como foi a integração com a delegação brasileira? Sabino - Muito boa, entre nós brasileiros a união ocorreu com muita força e uma torcida bem forte. Eu inclusive assisti à semifinal do basquete masculino entre Brasil e Estados Unidos, e torci bastante para a vitória e a vaga para a final. Mas também estive na derrota da Seleção Masculina de Vôlei para a Venezuela. Mas faz parte do esporte ganhar e perder. Um outro bauruense está lá também como chefe da delegação brasileira de taekwondo - 0 professor e mestre Mauro Hideki.

JC - Como é visto atualmente o esporte brasileiro pelos atletas de outros países? Sabino - Respeitado como sempre, principalmente o futebol, o basquete e o judô.

JC - A família Mamed dominou a Confederação Brasileira de Judô por mais de 20 anos. Recentemente, o Aurélio Miguel foi um lutador não só no tatame, mas lutou para acabar com essa hegemonia. Qual a sua avaliação sobre a estrutura do judô brasileiro? Sabino - Depois de 20 anos de tirania da família Mamed, nós estamos no caminho certo. Antes você tinha que pagar e muito para poder disputar campeonatos na Europa, e hoje em dia nós temos todo o apoio da Confederação Brasileira. O reflexo disso foram as cinco medalhas de ouro que nós conseguimos trazer para o Brasil.

JC - E o judô bauruense, como você avalia? E por que há algum tempo você vem lutando por São Caetano do Sul? Sabino - Já faz dois anos que eu luto por São Caetano. Eu sou um profissional do judô, com família para sustentar. Me fizeram uma proposta na época em que eu disputei a Olimpíada, e não tive como recusar. Eu disputei vários campeonatos, Jogos Regionais e Abertos por Bauru e, infelizmente, a mudança foi inevitável.

JC - Seria inviável você continuar aqui em Bauru? Sabino - É difícil, apesar de eu treinar e trabalhar em Bauru. Tenho muitos gastos e o rendimento daqui é insuficiente. Fiquei surpreso quando estava treinando em São Paulo e soube que o Bauru Basquete pediu licença.

JC - Qual seria a solução, na sua opinião? Sabino - Bauru tem tudo para ser uma potência dentro do esporte nacional, mas falta incentivo das empresas, universidades e da prefeitura. Então, o que ocorre é que quando um atleta se destaca, logo é adotado por uma cidade. Eu disputei mais de dez Jogos Abertos por Bauru e sempre nós terminávamos atrás das grandes cidades como Santos, Campinas e São Caetano, e hoje em dia a gente vê Bauru terminar os jogos em 15.º e 16.º lugar.

JC- Quais são seus planos e perspectivas após a conquista da medalha de ouro? Sabino - Só vou pensar no Mundial do Japão, que será em setembro. Acredito que vai ser mais difícil do que o Pan, por contar com atletas europeus e japoneses que são a grande força do judô, e não participaram do Pan. Espero conseguir uma medalha e repetir a ótima campanha do Pan. A minha vaga para as Olimpíadas em 2004 depende bastante da minha performance no Mundial, já que se eu conseguir uma medalha estarei garantido em Atenas.

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