Reginópolis - Quando o visitante entra na cidade de Reginópolis (70 km a Noroeste de Bauru) logo percebe que em frente da maioria das casas está instalado um banquinho. De madeira ou de alvenaria, ele é o local escolhido pela população para uma espécie de “terapia em grupo”. As reuniões são sempre após o almoço e no final da tarde, quando as donas de casa já terminaram o trabalho doméstico e podem dedicar um tempo para desabafar com as vizinhas ou com os parentes os problemas enfrentados por elas e pela família.
O “privilégio” segue na contramão das mulheres que vivem nas grandes cidades e precisam pagar um profissional para “desabafar”.
A “terapia em grupo” na versão “caipira” elege a pessoa mais experiente para dar os conselhos. É ela quem, com seus conhecimentos práticos, oferece opções para resolver as dificuldades que afetam as outras famílias da comunidade.
Quando o problema atinge a família da mais experiente, são as mais jovens que arriscam na orientação, tomando como base atitudes mais modernas, porém nem sempre eficientes.
A “reunião” informal acontece quase que por acaso, como um costume de quem já vive na zona rural. Após servir o almoço e arrumar toda a cozinha, a mulher vai para a porta da casa e ocupa o banco. Logo vem uma vizinha, uma amiga e até um parente fazer companhia.
A “conversa” não é muito demorada, mas como é mantida na agenda diária, tem um efeito muito positivo. Fofocas à parte, as mulheres conversam sobre todos os assuntos, especialmente sobre a família. “Se um filho está com problema e a gente não sabe como resolver conta para a amiga que aconselha a gente”, admite Maria Rodrigues Pereira.
Aparecida da Costa Alves diz que gosta de conversar com as amigas mesmo nas ocasiões que não tem problemas para resolver. “É um costume que a gente tem”.
Já Clarice Batista da Costa Alves confessa que a “conversa” de banquinho cria intimidade. “Temos intimidade umas com as outras e isso permite que a gente oriente e aconselhe a amiga na resolução de problemas.”
As mulheres contam que, sentadas na frente das casas, observam o movimento. “Sabemos quando um visitante chega, conhecemos a maioria dos moradores.”
Mau-olhado
Como em toda cidade pequena, Reginópolis também tem sua benzedeira. Aquela pessoa que ajuda os outros a se livrarem do quebranto, da inveja e do mau-olhado. A dona de casa Rosalina Rodrigues Cruz, chamada carinhosamente pela população de dona Rosa, é quem tem o dom de benzer.
Moradora do Jardim Primavera, a mulher atende até 20 pessoas por dia. Não cobra pelo serviço e garante que suas orações livram as crianças do quebranto e os adultos do mau-olhado.
Música para cada ocasião
Meio de comunicação convencional não tem vez na pequena Reginópolis. O serviço de alto-falantes da igreja é o responsável pela comunicação direta com a população. São quatro cornetas voltadas para os quatro cantos da cidade que anunciam as mortes, o desaparecimento de um objeto ou mesmo uma reunião da terceira idade.
Sem rádio ou jornal, os moradores ficam sabendo dos fatos mais urgentes através do alto-falante da igreja. De duas a três vezes ao dia, a aparelhagem é ligada para dar notícias. Para que a população não se confunda, a música é usada para diferenciar um fato do outro, explica o diácono permanente, Odair Capellaco.
De acordo com ele, para anunciar a morte de um morador é usada uma música fúnebre. “Eles ouvem a música e prestam mais atenção porque já se acostumaram com a melodia. Assim ficam sabendo quem morreu.”
Já para falar de uma reunião de terceira idade ou da quermesse que está acontecendo todo final de semana na cidade, a música é mais alegre. Para comunicar o desaparecimento de um objeto, a música também é diferente.
O serviço de alto-falantes é tão democrático que, embora seja da igreja católica, faz anúncios de igrejas evangélicas, enfatiza o diácono. “É um serviço de utilidade pública. Não cobramos nada e atendemos a todas as necessidades da comunidade.”
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Sem destino
Um ônibus que transporta trabalhadores rurais traz no letreiro a informação “sem destino” e não chama a atenção dos moradores de Reginópolis que já se acostumaram com o circular parado na praça principal.
O condutor, José Bispo dos Santos, explica que resolveu adotar a legenda porque cada dia está em um local. “Transporto cortadores de cana e vou para onde tem cana. Não tenho destino certo.”
Tolerância zero
Quem procura tranqüilidade tem uma ótima opção em Reginópolis. O índice de criminalidade é quase zero. Há anos não é registrado um assassinato e nos últimos três meses as ocorrências mais graves foram os furtos simples, explica o sargento Marcelo Rodolfo Corse. “O relevo da cidade favorece o uso de bicicletas. As pessoas são tão despreocupadas que abandonam o veículo em qualquer lugar.”
Há casos em que até a bicicleta é conhecida. “O dono abandona em algum lugar e alguém reconhece e recolhe até no dia seguinte. O proprietário apresenta a queixa e depois encontra.”
Outro furto registrado pela PM foi de um isqueiro e um pacote de cigarros. “É comum o furto de galinha. Os jovens furtam para fazer uma galinhada no final de semana.”
De tão sossegada que é a cidade, a polícia passa a ter uma função diferenciada. “Fazemos o serviço de assistência social. Encaminhamos doentes para a unidade de saúde ou levamos para os hospitais da região.”
A cozinheira Maria Iraci Peres Custódio e sua neta de 2 anos, Ana Luiza Tomaz, são provas da tranqüilidade que o município oferece. A criança fica sentada na calçada sozinha, enquanto a avó passa roupa. “Aqui é muito tranqüilo. No verão deixamos as janelas abertas. Os carros ficam estacionados com a chave no contato.”
Sabão de soda
O velho tacho de fazer sabão não foi aposentado pela família de Ilda Rodrigues da Silva, 66 anos, moradora de Reginópolis. Para manter a limpeza das roupas, ela ainda fabrica em casa o sabão em pedra.
A dona de casa diz que não se acostuma com o sabão vendido em pedaços. “Estou acostumada com o sabão que faço.” A mulher mantém outros costumes da roça em sua casa. “Cozinho no fogão de lenha e não compro verduras, cultivo-as no quintal. Com as plantas medicinais faço chás para esquentar as noites frias. Mantenho um pequeno pomar para a família ter frutas.”