Regional

Tradição melhora qualidade de vida

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Paulistânia - Longe do relógio de pulso, que as mulheres usam apenas quando vão para cidades maiores, as donas de casa mantêm a rotina de quem mora em zona rural, conta dona Luiza Bernardino da Luz Andrade, moradora da pequena Paulistânia (48 quilômetros a Sudoeste de Bauru).

Para ela, o dia começa por volta das 6h. Depois do suculento café da manhã, com leite tirado da vaquinha que mantém no seu quintal e pão caseiro, Luiza arruma a casa e vai para o quintal. Lá, trata dos porcos, das galinhas e ajuda o marido, Alberto Andrade, a cuidar da horta.

O cardápio do almoço, sempre por volta das 11h, é recheado de carne caipira e verdura fresca. “Panhada no pé”, como dizem. “Criamos galinhas para consumo próprio. Com o ovo fazemos a sobremesa. Quando o porco engorda, usamos a carne para o consumo da família.”

No período da tarde, a mulher costuma visitar os filhos que moram na mesma cidade onde aproveita para tomar um café. Por volta das 20h, ela e o marido fecham a casa e vão dormir. “Não assisto novela e nem televisão. Além de não ter o costume, elas não ensinam nada de bom.”

Nos finais de semana, a ida à missa é uma obrigação cumprida. “Aos domingos, vou à missa e faço ou recebo visitas dos filhos e parentes.” Luiza revela que nunca usou um serviço de disque-pizza, por exemplo. “Aqui não tem e a gente não está acostumado a esse tipo de comida. Quando vou a Bauru comprar roupas, como um lanche para variar.”

Mantendo a tradição, a família nunca enfrentou as burocracias de abrir um crediário. “No nosso tempo não existia isso. Sempre morei em sítio. A gente compra quando tem o dinheiro na mão. Antigamente, marcava na caderneta.”

Enlatados não

O leite com nata, o bolo e o pão feito com ovo caipira, os doces caseiros, as verduras frescas e a carne de galinha e porco criados no quintal refletem na qualidade de vida da população de Paulistânia, confirma o coordenador municipal da Saúde, Manoel Nascimento Corrêa.

Segundo ele, os enlatados, embutidos e empacotados a vácuo não têm espaço na mesa da população. “Dificilmente eles adquirem esses produtos e se alimentam deles. Na maioria, são pessoas saudáveis. Os idosos apresentam problemas da própria idade, mas vencem as barreiras da doença com mais facilidade”, explica.

A vitalidade da população é fator determinante na qualidade do atendimento da unidade de saúde da cidade. “Como o número de atendimento diário não é excessivo, os dois médicos têm mais tempo para se dedicar aos pacientes. Cada consulta dura em média 15 minutos. O relacionamento médico/paciente é diferente, porque tanto o profissional quanto o doente mantêm uma relação de confiança, como se o médico fosse um membro da família.”

Com uma demanda pequena, os profissionais de saúde têm como tratar cada paciente como ele merece, enfatiza o coordenador. “A enfermeira vai na casa do doente aplicar insulina, medir a pressão e saber como está aquele paciente. A fisioterapeuta tem tempo para exercitar cada pessoa que precisa do atendimento, assim como o dentista tem como tratar e prevenir as doenças bucais.”

Embora tenha todo o aparato necessário para atender os doentes da cidade, o coordenador admite que a medicina caipira ainda vigora na maioria das casas. “Eles cultivam plantas medicinais e usam muito o chá caseiro para curar determinadas doenças”. Outra opção para os moradores são os medicamentos manipulados, adquiridos através da Associação dos Municípios.

O único problema em relação à saúde é a falta de um hospital. “Os pacientes que precisam de internação são encaminhados pela ambulância para Bauru.”

A antiga maneira de agradecer o atendimento levando uma “lembrancinha” é um costume que premia os profissionais de saúde, admite Corrêa. “Os moradores trazem verduras e frutas para os médicos, dentista, fisioterapeuta e até para nós. É uma maneira deles agradecerem o atendimento.”

Longe do SPC

O Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) e o Serasa nunca foram acionados para consulta pela comerciante Julieta Narciso, de Paulistânia. Vendedora de roupa, ela conta que as vendas são feitas para as pessoas conhecidas. “Nós conhecemos todos os moradores. Com alguns temos mais afinidades, com outros pedimos para assinar um vale ou se a compra for muito grande, uma promissória.”

O comércio da cidade é pequeno, mas mantém costumes nada convencionais. Os mercadinhos fecham para o almoço das 12h às 13h. Já a única padaria do município achou uma forma bastante original de fazer com que o pãozinho francês chegue no “embornal” do trabalhador rural. Todos os dias, um funcionário da padaria corre os pontos de embarque dos trabalhadores, por volta das 5h, com um carrinho carregado com o pão quentinho e vende em média 150 unidades.

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