Ser

Confrarias de sabor

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 6 min

Bons de garfo, eles sempre foram. Mas agora, ao invés de esperar para serem servidos, os homens estão tomando a frente não só da churrasqueira, mas do forno e do fogão e até criando “panelinhas” de apreciadores de gastronomia, com direito a reuniões semanais fartas de sabores e temperadas com muita conversa e piada.

A cozinha destes homens tem outro nome: área de lazer e geralmente é no quintal onde estão todos os apetrechos indispensáveis: que vão de colheres de pau de múltiplos tamanhos, panelas de pressão gigantescas a inúmeros vidros de pimenta

A caldeirada é o prato preferido dos integrantes da “Confraria dos 13”. Empresários, profissionais liberais e aposentados, que há três anos se reúnem sempre às sextas-feiras, numa área ao ar livre, em uma casa no Aeroporto com churrasqueira, forno e fogão a lenha, que funciona 70% com carvão e 30% com lenha de eucalipto, e dá o ponto da comida e o tempo do bate-papo.

O supervisor de vendas aposentado Francisco Edy Grassi, o Pimpa, 61 anos, é o líder do grupo e o dono do espaço físico onde ocorre a maioria das reuniões. Ele conta que sempre cozinhou, mas no princípio era só churrasco. “Depois eu acabei virando queimador de panela”, diverte-se.

No cardápio, ele queima panela com carne seca na moranga, muitos molhos para o festival de macarrão, carneiro a caçador e pratos à base de bacalhau. Mas gosta mesmo é de fazer frango com polenta e rabada. “Tudo light com uma manta de bacon a cada sexta-feira. Mas para a mulherada não chiar tem muito verde”, brinca.

Por falar nelas, os meninos se esforçam para levar um pratinho para as esposas, mas já fizeram dois encontros com a participação das mulheres como convidadas.

Pimpa explica que não são os 13 integrantes os cozinheiros, existem três ou quatro colaboradores, que picam, lavam e enxugam e a turma da faxina, que deixa tudo em ordem quando o jantar termina, por volta das 22h.

O publicitário Mário Sérgio Campos, que também faz parte do grupo, explica que o encontro tem hora para terminar, pois a sexta-feira é dia de passear com as esposas. Então, não podem demorar.

A turma da cozinha se prepara a partir das 16h, mas a discussão do cardápio começa na segunda de manhã, na rodinha do Fran’s Café, se estende por telefone até quarta e só termina na quinta, no dia das compras.

Mesmo em um grupo pequeno, tem sempre alguém que não gosta do sabor de alguma coisa. Quem não gosta do cardápio ganha um bife. O advogado Waldir Rodrigues não come peixe, mas segundo os colegas faz os melhores pratos com bacalhau da turma. “Dizem que fica uma delícia, mas eu não como.” Em compensação, passou a aprimorar e exercitar os seus dotes culinários também em casa, para a família. “Eu gosto da terapia que é mexer com as panelas.”

Pimpa também concorda que cozinhar une terapia e diversão, por isso conta que é proibido falar de política e trabalho. Brigas? Só para discutir um cardápio. “E olha que só de discutir o cardápio já dá fome. Todo mundo quer saber como faz e o que vai dentro.”

Mais de uma década

Há 11 anos, todas as terças-feiras, os empresários Paulo Paiakan e Nonô Luongo, o agente de turismo Neif Demétrio, os aposentados do Sesc Marcos Doval e Cirso Mendes Silveira, o dentista Walter Takeda e o gerente comercial da TV Record Chico Sertori se reúnem para cozinhar.

O esquema desta turma é um pouco diferente: a cada semana, o encontro é realizado na residência de um dos integrantes e o dono-da-casa é responsável pelo prato principal. Os rapazes também têm o hábito de chamar dois convidados a cada reunião e se um dos integrantes do grupo oficial não pode comparecer ou tem compromisso, o encontro é cancelado.

“Como todos cozinham, cada um tem sua especialidade”, explica Sertori, o relações públicas da turma. “O Paulo é especialista em peixe de qualquer tipo. O Nonô é o homem do macarrão. O Marcos gosta de fazer galinhada e cabrito. O Cirso é o churrasqueiro, mas também faz um camarão na moranga campeão, e eu gosto de preparar carnes, principalmente as exóticas como a de cordeiro e javali.”

Do mesmo modo que na “Confraria dos 13”, a discussão pelo cardápio se inicia no começo da semana, mas a reunião vai das 19h à meia-noite.

Na última terça, eles preparam tempura (lê-se tempurá) de legumes como aperitivo, macarrão a Bauru e galinhada acompanhada de frango com pequi.

Enquanto Paiakan preparava o tempura e o frango num fogão semi-industrial de média pressão no quintal, Nonô fazia o macarrão e a galinhada na cozinha, auxiliado por Takeda e Doval.

Os outros integrantes se incumbiam de arrumar a mesa e preparar os “copos sujos” característicos do grupo. Taças de cerveja geladas com as bordas passadas numa pasta de sal e limão. Eles também têm o hábito de fazer gelo com água de coco.

Os convidados da noite eram o empresário Daniel Garcia Alonso e Fernando Junqueira, genro de Nonô.

Na conversa entre os amigos, histórias passadas pelo grupo nas pescarias, que acabam originando os jantares e até os defeitos e qualidades de cada um. “Cirso Silveira não come legumes e tira todos os temperos verdes. Em tempo de Pan, o Neif é sempre o medalha de ouro (o melhor garfo). O que não fica atrás Chico leva a prata”, brincam todos ao mesmo tempo e é impossível atribuir a fala a alguém.

Os amigos admitem que colecionam receitas, compram livros e assistem programas de culinária na tevê.

A maioria aprendeu a cozinhar pela necessidade na beira do rio, mas Paiakan conta que o horário de trabalho diferenciado da esposa Alaíde fez com que ele começasse a mexer com as panelas bem cedo. Hoje tem na gastronomia um hobby e até uma fonte alternativa de renda, pois sua comida famosa já lhe rendeu convites para o preparo de jantares e festas.

Segundo os colegas, os peixes e sashimis que ele prepara são únicos. “Isso eu não sei, mas que tem gente aqui capaz de comer quase dois quilos de sashimi, tem”, confessa o cozinheiro enquanto refoga o frango num tacho.

Nos pratos mais repetidos pela turma estão o sashimi, a rabada e o frango com polenta. Mas tudo tem que ter temperos diferentes e muita pimenta malagueta e comari.

Esses amigos não medem esforços para fazer com que o evento frugal aconteça religiosamente. Nonô, que cozinha desde os tempos da faculdade, vem de São Paulo, onde trabalha, para jantar com os amigos. “Concilio o dia em que fico em Bauru, ou terça ou quarta, e já vou inventando a receita.”

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