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Reflexões na Hora Amarga


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Quando dizíamos, ainda antes da agressão ao Iraque ter início, que ela seria realizada, qualquer que fosse a posição da ONU a respeito do assunto, o fazíamos por parecer-nos que o poder real que domina o mundo e manipula a máquina militar americana como, de resto, outras máquinas militares, por intermédio de governos “amigos”, melhor do que ninguém, sabe o respeito que merece um organismo que, integrado por cerca de 200 representantes, confere somente a cinco o “direito” de veto, capaz de tornar prevalecente o voto de um único deles, para anular qualquer resolução, ainda que adotada por todos os demais integrantes da Assembléia Geral. Mas, não apenas dizíamos que a agressão brutal e covarde viria fatalmente, como afirmávamos, contra todas as aparências da época, que o perdedor seria o agressor.

No primeiro momento da vitória militar americana, a previsão que acabamos de mencionar pareceu falhada, dando razão aos que a haviam achado absurda. Os acontecimentos presentes, porém, já começam a mostrar, claramente, uma outra realidade: a reação aos invasores não apenas continua mas, tudo indica, está crescendo cada vez mais, a ponto de, nos próprios EUA, estarem surgindo movimentos de opinião pública, cada vez maiores, exigindo o término da presença de soldados americanos no distante país, que não possuía as tais armas de destruição em massa, a propaganda anglo-americana, capazes de colocar em perigo o próprio mundo. Tratava-se, como se vê agora, de uma monstruosa mentira, que a consciência dos povos repele, cada vez mais firmemente.

Repisamos essas coisas, não para vangloriar-nos com a confirmação de previsões que fizemos; mas para que tenham os leitores destas “Reflexões”, uma informação, que julgamos impressionante, da colossal medida em que, diariamente, o poder mundial nos desrespeita a inteligência, e forceja para torcer a realidade, para continuamente corromper-nos, de modo a que, confundindo liberdade com licenciosidade, e a disseminação de todos os vícios, com avanço e modernismo - nada obstante sejam os mesmíssimos vícios que levaram à ruína todas as civilizações que nos precederam - tornar-nos confusos e cínicos o bastante para inutilizar a nossa capacidade de reação contra a brutal exploração de que somos vítimas.

Trata-se, amigo leitor, de problema de imensa magnitude, diante do qual a nossa consciência nos impele a fazer o que recomendou Louis Salleron quando disse que “melhor do que maldizer a escuridão, será sempre riscar pelo menos um fósforo”.

Risquemos, portanto, o nosso fósforo, embora insignificante. Associado a outros, porém, que sejam, igualmente riscados, quem sabe ainda algo poderá ser feito em favor da civilização ocidental cristã, como era designada há apenas tão poucas décadas, e salvá-la dos perigos que a ameaçam gravemente, representados pela ganância desenfreada dos que, sob o nome de mercado, erigido em estranho ente autônomo, pretende submeter-nos, a nós sem cujo esforço ele não existiria, numa absurda inversão de valores e de posições. A serviço desse estranho “deus” pagão, impõem o que chamam de democracia, que pouco, ou nada, tem a ver com o verdadeiro ideal democrático. “Pelos frutos os conhecereis” é a límpida e imortal lição.

No cenário nacional como no internacional, quais têm sido eles, amigo leitor, fascínio hipnótico da propaganda à parte?

A resposta da nossa consciência será esclarecedora, pensamos.

O autor, Jorge Boaventura, é colaborador do JC.

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