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Dilemas do Fórum Social


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Diversas linhas de análises são seguidas para interpretar a trajetória do Fórum Social Mundial (FSM), mas dentro do movimento é unânime a convicção de que a unidade e o consenso entre seus heterogêneos componentes serão alcançados com base nos valores compartilhados da solidariedade, justiça social, eqüidade e participação. Estes valores eram comuns na miríade de organizações da sociedade civil que confluíram no FSM. O primeiro Fórum, realizado em janeiro de 2000, em Porto Alegre, teve como objetivo a denúncia da globalização neoliberal e colocou-se como antítese ao Fórum Econômico Mundial (FEM) que se reúne anualmente em Davos, na Suíça.

A diferença entre o FSM e Davos também era, essencialmente, uma questão de valores, além de toda discussão política. O Fórum de Davos identifica-se com o paradigma da globalização neoliberal, que suporta um sistema de valores imposto em quase todo o Planeta. Trata-se do valor do livre mercado como regulador supremo da economia, do valor do lucro como elemento determinante da vida econômica e social, e da teorização da “nova economia”, na qual as especulações são muito mais proveitosas do que os investimentos na velha economia produtiva, com o resultado de que hoje em dia para cada dólar colocado na produção há outros US$ 20 em especulação nas bolsas de valores.

A emergência da sociedade civil é paralela ao crescimento da brecha que a distancia das instituições políticas tradicionais. Uma das razões é que a amplitude e o arrastão da globalização reduziram grandemente o espaço dos partidos políticos, pois os deixou sem capacidade de dar respostas globais, em um progressivo processo de atomização.

Pode-se dizer que o caminho atual é de duvidosa utilidade prática. Se se contemplasse o ativismo das organizações da sociedade civil com o olhar cínico de um expoente do sistema vigente, se poderia chegar à conclusão de que lhe presta um grande apoio à globalização neoliberal. de fato, os milhares e milhares de voluntários que trabalham nos hospitais ou na educação, amortizam o impacto negativo da globalização. Por algo o senador norte-americano Jessie Helms compara esse ativismo com “o óleo que elimina muitos ruídos de uma máquina que funcionaria de todas maneiras, mas assim o faz melhor”.

Já no campo da sociedade civil reservou, se está conseguindo progressos importantes para a identificação de problemas e de soluções. Por exemplo, sobre a questão da água, que em poucos anos ser um dos conflitos mais candentes (um terço da humanidade ficar sem água suficiente), as organizações não-governamentais produziram muitos mais estudos e projetos do que todo o sistema intergovernamental. “Mas qual será o destino deste esforço, se as instituições não o reconhecem e o transformam em leis e tratados?

O problema estratégico, para a sociedade civil, é estudar novas alianças com todas as forças que compartilham a mesma visão da sociedade. Um exemplo óbvio é o dos sindicatos. Entretanto, os passos nessa direção são mínimos, porque muitos sindicatos temem ser deslocados pela sociedade civil, enquanto nesta alguns setores consideram que os sindicatos ficaram burocratizados e às vezes aliam-se com os governos em troca de benefícios.

O autor, Roberto Savio, presidente emérito da IPS e membro do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial (FSM).

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