“Mais vale um dia ruim de pesca, do que um dia bom de trabalho!” E para os mais otimistas, dia ruim de pesca é coisa que não existe. Isso mesmo, porque, com raras exceções, quando um incidente põe fim na tão esperada aventura, está para vir uma data em que pescaria não seja coisa boa. Isso porque a pesca começa muito antes da beira do rio, da fisgada, do encontro com o peixe.
Como diz o pescador aposentado do Banespa Jesus Hermoso, 53 anos, “pescaria é uma somatória, a expectativa é gostosa, as reuniões para preparar a viagem são ótimas, durante é sempre bom e comentar a pescaria é também muito gostoso. É o pré e o pós”! Com isso, ele reafirma a opinião dos companheiros de pesca e também aposentados do mesmo banco, que acrescentam: “Pescaria também é a companhia e, principalmente, o contato com a natureza”.
A oportunidade de conviver em sintonia com o meio ambiente a ainda divertir-se nas águas pantaneiras aproxima cada vez mais esse grupo de amigos. Em 2003, eles formaram pelo quinto ano consecutivo uma caravana rumo ao pantanal matogrossense, mais especificamente, ao rio Paraguai.
Surpresa!
Antonio Carlos Lisboa, Arnaldo Nestor Múfalo, Dilermando Alves de Moura Filho, Jesus Hermoso, João Ulisses Gonçalves, José Marivaldo Gonçalves, Mário Kono, Nelson Zamboni, Roberto Moron Martine, Vladimir Popoff, Zoel Campanelli da Costa e Zulindo Costa saíram de ônibus de Bauru e seguiram por 12 horas em uma viagem com destino a Corumbá, no Mato Grosso do Sul.
Lá, eles embarcaram em um barco-hotel equipado para receber o grupo de pescadores, com todas as suas exigências e mordomias. Pelas águas do rio Paraguai, eles iniciaram uma subida de mais de 270 quilômetros de rio, com destino ao rio Cuiabá, ao Norte do Mato Grosso do Sul.
E, naquelas águas, o grupo teve uma feliz surpresa: o encontro com áreas repletas de vitórias-régias. Apesar de ser conhecida como o símbolo da Amazônia, essa bela flor aquática também é encontrada no Mato Grosso e nas Guianas.
O pescador Roberto Moron Martins comenta que só havia encontrado com a planta na bacia Uberaba. “São mais de 150 quilômetros rio acima, de onde estávamos pescando. Lá, tem tanta água que em determinado lugar você não vê as margens. É preciso conhecer muito para não se perder. Além disso, em dias de vento ocorrem grandes ondas muito perigosas”, comenta Martins.
Os pescadores aposentados imediatamente preparam suas máquinas para registrar a beleza da vitória-régia, que exibe flores rosas e brancas, que abrem ao final da tarde e duram apenas duas noites. Suas folhas são capazes de suportar o peso de uma criança de quase 40 quilos. No nosso inconsciente, o menino Mogli descansava e fitava a natureza sentado em uma vitória-régia. Há muitas versões sobre a origem da planta, mas uma das mais belas é contada por tribos indígenas, com a sensibilidade e respeito à natureza.
Casos e causos
Durante a tão esperada pescaria no Pantanal, o grupo não poupou momentos para se divertir e tirar o costumeiro “sarro” dos colegas. Nelson Zamboni recebeu o título de “rei das piranhas”, pois foi a espécie que mais fisgou. Ele tornou-se o responsável por providenciar o pescado para um sashimi diferente, feito com piranha. “O piloteiro, um exímio cozinheiro, fez muito sashimi de piranha, que tem uma carne saborosa e fica sem as espinhas”, comenta Zamboni.
Além do sashimi, a espécie virou aperitivo: “Era costelinha de piranha, bem torradinha para acompanhar a cerveja”, comenta João Ulisses.
A viagem também foi povoada de piadas e brincadeiras, principalmente fotográficas. “Não tem aquela que em rio que tem piranha, jacaré nada de costas? Então, lá vimos exatamente a cena, registramos em fotografia, mas infelizmente não era opção do jacaré estar de costas, o bicho estava morto”, comenta Gonçalves.
E por aí vai. Zulindo Costa é outra “vítima” da turma. Pela primeira vez no Pantanal com esse grupo - há mais de 20 anos pesca no Mato Grosso do Sul - teve que conviver com a brincadeira da onça, que vai virar uma história contada pelo amigo também aposentado do Banespa Fernando Lucilha Júnior, que não pôde acompanhar o grupo na ocasião.
Líder
Zoel Campanelli Costa é o líder da turma e com a colaboração de Lisboa organiza toda a pescaria. Barco, ônibus, o quê levar, quem vai e quem paga o que para quem fica sob sua responsabilidade. “Em momento algum vejo a organização da pescaria como um trabalho, para mim é um grande prazer”, comenta Costa.
Ele é adepto da filosofia que peixe não é tudo: “Ao sair para pescar, o peixe não é o mais importante, mas sim a natureza e a companhia”, finaliza o pescador aposentado. Costa coloca-se à disposição para outras informações sobre barcos no Pantanal para quem tiver interesse em pescar lá. Seu telefone é (14) 223-6905.
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A lenda da flor
"Faz muitos e muitos anos. Nem sei quantos. Em nossa tribo, vivia uma índia, muito moça e muito bonita, a quem haviam contado que a lua era um guerreiro forte e poderoso. A moça apaixonou-se por esse guerreiro e não quis casar-se com nenhum dos índios da tribo. Não fazia outra coisa sendo esperar que a lua surgisse. Aí, então, punha os olhos no céu e não via mais nada. Só o poderoso guerreiro. Muitas vezes, ela saía correndo pela floresta, os braços erguidos, procurando agarrar a lua.
Todos da tribo tinham pena da índia, pena de vê-la dominada por um sonho tão louco. E o tempo foi passando... Contudo, o sonho não deixava a pobre moça em paz. Queria ir para o céu. Queria transformar-se numa estrela, numa estrela tão bonita, que fosse admirada pela lua. Mas a lua continuava distante e indiferente, desprezando o desejo da moça.
Quando não havia luar, a jovem permanecia aborrecida em sua oca, sem falar com ninguém. Eram inúteis os esforços dos amigos e parentes para que ela ficasse com as outras moças. Continuava recolhida, silenciosa, até a lua aparecer novamente.
Uma noite em que o luar estava mais bonito do que nunca, transformando em prata a paisagem da floresta, a moça repetiu sua tentativa. Chegando à beira da lagoa, viu a lua refletida no meio das águas tranqüilas e acreditou que ela havia descido do céu para se banhar ali. Finalmente, ia conhecer o famoso e poderoso guerreiro.
Sem hesitar, a moça atirou-se nas águas profundas e nadou em direção à imagem da lua. Quando percebeu que havia sido ilusão, tentou voltar, mas as forças lhe faltaram e morreu afogada.
A lua, que era, como eu disse, um guerreiro forte e poderoso, uma espécie de deus, viu o que havia acontecido e ficou compadecida. Sentiu remorso por não ter transformado a formosa índia em uma estrela do céu. Agora era tarde. A moça ia pertencer, para sempre, às águas profundas da lagoa. Porém, já que não era possível torná-la uma estrela do céu, como ela tanto desejara, podia transformá-la numa estrela das águas. Uma flor que seria a rainha das flores aquáticas.
E, assim, a formosa índia foi transformada na vitória-régia. À noite, essa maravilhosa flor se abre, permitindo que a lua a ilumine e revele sua impressionante beleza."
Extraído do livro Histórias e Lendas do Brasil, adaptado do texto original de Gonçalves Ribeiro.