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Consumista chegou a ter 120 calças

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

O drama do consumo compulsivo perseguiu Paula (nome fictício), 40 anos, durante oito anos. Comprar, para ela, se transformou num vício. “É como qualquer outra droga ou álcool que você usa e, quando passa o efeito, seu corpo pede mais”, compara.

Ela conta que não sabe exatamente como tudo começou. “Tive uma adolescência muito simples, tinha duas calças jeans, uma bota com sola de borracha, não me preocupava com isso. Quando me casei, fui morar em São Paulo, ganhava um salário bom e passei a comprar roupas de uma prima, que me vendia tudo pela metade do preço. No começo era uma ou duas peças por mês”, comenta.

Ela afirma que não percebeu quando, nem como a compulsão chegou. Quando percebeu, suas dívidas com roupas já consumiam mais da metade de seu salário. “Eu saía para fazer alguma coisa na rua e não voltava para casa sem alguma sacola na mão. Eram todos os dias. Eu chegava a gastar R$ 1.700,00 por mês com roupas, sapatos, brincos e CDs. Tenho CDs lacrados em casa até hoje”, ressalta.

Paula conta que não importava preço, marca – nada. “Eu olhava uma vitrine e sentia vontade de ser aquele manequim, de estar naquela roupa, de ficar daquele jeito, de experimentar aquele espírito que a imagem me passava. Viciei em comprar”, admite.

A história só mudou há pouco mais de um ano, quando a moça envolveu-se numa campanha ecológica. “Percebi que havia muita coisa importante para se fazer nessa vida, que havia muitos setores da sociedade precisando que a gente se envolva – política, campanhas assistenciais – e eu ali, pensando naquelas bobagens de comprar roupa. Disse para mim que eu precisava parar com aquilo, que tinha virado doença e que eu precisava de ajuda”, lembra.

Paula já havia feito sessões de análise muitos anos antes e conhecia os caminhos da psicoterapia. Ela passou a observar seu próprio comportamento, tentando descobrir o que sentia, o que a fazia comprar. Percebeu que idealizava a roupa. Ao imaginar que uma calça tinha “cara” de paz, de férias, ela desejava viver aquela sensação.

“Mas ia para casa sem comprar. Daqui a pouco começava a arrumar desculpas, porque a calça é versátil, combina com aquelas blusas que eu não uso porque não tenho com o que usar – tudo mentira, não usava porque não dava tempo. Cheguei a ter 120 calças de uma só vez. Quando me convencia de que deveria comprar, chegava a ligar na loja para guardarem a calça para mim”, lamenta.

Paula, então, fez uma promessa. Jurou à Nossa Senhora que não compraria nada que não fosse absolutamente necessário por um ano. “Hoje (sexta-feira passada), exatamente hoje, termina minha promessa e estou comprando só uma pulseirinha”, comemora.

Paula afirma que conseguiu vencer seu vício pelas compras da mesma forma como quando decidiu abandonar o cigarro: simplesmente parou. “Acabei não sentindo falta, porque comecei a ter prazer em outras coisas. Minha conta bancária nunca mais ficou negativa, eu exercia minha criatividade combinando peças que eu já tinha – porque, antes, eu comprava, usava e esquecia”, comenta.

Questionada sobre o que faria se um filho seu apresentasse atitudes compulsivas, Paula diz que tentaria o diálogo. Ela salienta que as crianças de hoje são bem mais suscetíveis ao consumismo.

“E a onda das lojas 1,99 piorou muito isso. Passou-se a dar mais presentes para a criança. Só que elas não sabem a diferença entre R$ 1,99 e R$ 199,00. Confundiu a cabeça delas E se você começa a dar presentes todos os dias, ela se acostuma e você não tira mais esse hábito”, alerta.

Paula garante que os filhos dela só ganham presentes em datas especiais. No dia-a-dia, ela só compra roupas e sapatos para eles quando é necessário. “E eu combinei com eles. Eu dou uma mesada. Eles têm que juntar o dinheiro para comprar o que querem”, pondera.

Ela admite que vencer a compulsão é um grande desafio. “Não estou curada. A promessa com Nossa Senhora acabou. Agora vem a fase mais difícil, que é o compromisso que tenho comigo. E eu não vou, não vou voltar a ser como era antes. Mas não mesmo”, reforça.

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