Saúde

Avaliação pretende reduzir risco

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

De acordo com a fisioterapeuta e pesquisadora do Instituto Lauro de Souza Lima, Rosemari Baccarelli, ao incluir a avaliação dos pés no programa de controle da hanseníase, o Ministério da Saúde pretende reduzir as seqüelas ligadas à doença. A identificação precoce dos riscos de alteração permite ao profissional tomar medidas preventivas.

“Uma calosidade, por exemplo, mostra ao médico que aquele paciente está concentrando força excessiva ou recebendo pressão exagerada naquele ponto do pé. Se não fizer nada, o calo piora. Pelo exame do pé, o profissional pode projetar uma palmilha que inverta essa força ou atenue a pressão”, exemplifica Baccarelli.

Segundo ela, até há poucos anos, os médicos esperavam que surgissem os sinais de comprometimento dos tecidos do pé, como dor, vermelhidão e úlceras para agir, ou seja, era uma ação curativa. A ordem atual do ministério é intervir antes da alteração se instalar.

Esta avaliação dos pés é feita em poucos minutos e de uma maneira muito simples. Segundo a fisioterapeuta, são apenas três etapas que exigem apenas atenção e conhecimento do profissional.

O exame começa com o paciente parado de pé com as costas voltadas para o profissional. “Nesta posição, vou verificar se trata-se de um pé estável ou instável pela observação do alinhamento do calcanhar”, descreve.

Um pé estável é aquele que permanece alinhado, com o peso adequadamente distribuído por toda a extensão do pé. A instabilidade é revelada quando o calcanhar projeta-se para um dos lados.

Na segunda etapa da avaliação, o paciente é colocado sentado, com uma das pernas esticadas sobre um banco ou sobre as pernas do examinador. Nesta posição, o objetivo é verificar o alinhamento do antepé em relação ao calcanhar (se pisa para dentro ou para fora, por exemplo), a mobilidade das articulações e a qualidade dos movimentos.

“Também examinamos a força dos músculos da perna e do pé, a sensibilidade cutânea - que é a proteção do ser humano contra ferimentos - e se há deformidades, como joanetes, calos ou úlceras”, completa.

A última fase do teste é a avaliação da marcha. O paciente é orientado a caminhar normalmente indo e voltando diante do profissional. Segundo Baccarelli, existe uma mecânica padrão para o andar do ser humano. Quando um pé está totalmente apoiado no chão, o de trás já elevou o calcanhar, o peso do corpo já está projetado para frente e assim por diante.

Neste momento, o profissional avalia a velocidade de movimentação do calcanhar, a coordenação dos dois pés, a pressão exercida sobre os pés. Qualquer alteração pode indicar a necessidade de uma adaptação ortopédica.

“De modo geral, as palmilhas visam a distribuir melhor as forças que agem sobre o pé quando andamos. Elas também podem ser usadas para absorver choques sobre o pé durante o contato com o chão ou mesmo desviar forças de uma área com risco de ser ferida ou já ferida para outra área. Uma palmilha pode contribuir até para a cicatrização de uma úlcera já existente”, comenta.

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Benefício generalizado

O podiatra Hugh Cross, que ministrou em Bauru o 1.º Curso Nacional de Avaliação do Pé, Adaptações de Calçados e Órteses Simples, deixa claro que a avaliação dos pés e as técnicas de reabilitação preconizadas pelo Ministério da Saúde para o programa de controle da hanseníase podem beneficiar qualquer pessoa. Segundo ele, este trabalho pode melhorar até mesmo o desempenho dos atletas.

“O professor cita como exemplo um corredor que pisa para fora. Boa parte da energia e da força muscular que ele gasta durante a competição é para deixar o pé numa posição mais estável. Se usar uma palmilha corretiva, essa energia representará aumento na velocidade”, relata a fisioterapeuta Rosemari Baccarelli.

Na opinião dela, atendimentos deste tipo, no futuro, deverão ser estendidos à toda a população, em ações preventivas.

Para o diretor técnico do Instituto Lauro de Souza Lima (sede do curso), Marcos Virmond, o Ministério da Saúde está muito ativo em valorizar o processo de reabilitação nos últimos anos.

“Foram várias ações desde o ano 2000. Tivemos um curso nacional para cirurgias de reabilitação em hanseníase que está em sua terceira edição. Tivemos a publicação de manuais técnicos voltados aos profissionais de saúde e agora este para sapateiros ortopédicos. Essas três ações demonstram que o ministério está investindo na capacitação de seus profissionais, empenhado em resgatar a reabilitação do paciente”, completa.

Virmond salienta que a escolha do instituto para sediar o curso nacional deve-se à tradição do hospital em tratamento, treinamentos e pesquisas voltadas para a hanseníase, e à infra-estrutura da unidade, que já dispõe de oficinas ortopédicas para a confecção de órteses.

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