Quem analisa o analista? Será que os psicólogos, psiquiatras e terapeutas também buscam orientação e acompanhamento para seus problemas ou são seres iluminados e dispensam até uma ajudinha na busca dos ensinamentos do autoconhecimento?
Apesar da citação estereotipada, os psicólogos revelam que a grande maioria não atende como Sigmund Freud, o pai da psicanálise, que usava um divã para conversar com seus pacientes. Mas em contrapartida, todos assumem a importância de se fazer terapia e admitem reservar um tempo na agenda para resolver os “nós” pessoais e profissionais com outros colegas mais experientes.
A prática, segundo a psicóloga Débora Cristina Fonseca, conselheira do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo e coordenadora da comissão de gestão da sub-sede Bauru, não é obrigatória, mas está no estatuto da profissão.
“Não adianta nada você sair da faculdade recomendando psicoterapia se você mesmo não faz. Todo mundo tem questões a resolver.”
Dessa maneira, o caderno Ser fez uma “consulta” com profissionais de psicologia de diversas linhas de pensamento e atuação para saber como eles se comportam diante do estresse e dos questionamentos normais de todo ser humano, que acometem, inclusive, aqueles que optaram por seguir a carreira de estudiosos do comportamento e dos fenômenos psíquicos.
Confira o que eles responderam:
“Todos os profissionais de psicologia devem fazer psicoterapia. Assim como seria bom que todas as pessoas fizessem. Mas especialmente o psicólogo deve se submeter à psicoterapia para ter bem resolvido seus conflitos internos para que não os misture com os conflitos de seus pacientes. Os problemas dos psicólogos são problemas como de qualquer pessoa, pois antes de ser psicólogos são pessoas.”
A prática de aliviar as tensões da clínica ou entender melhor os casos de seus clientes, bem como de separar as questões pessoais dos problemas de seus clientes, chama-se supervisão - espaço onde os psicólogos discutem com outro psicólogo mais experiente sobre como conduzir seus casos clínicos. Atualmente, tenho trabalhado com grupos de supervisão para psicólogos em minha clínica. Acabo sendo psicólogo de muitos psicólogos.” José Luís Cremonesi
“Eu, particularmente, faço relaxamento diariamente no final do dia (noite), o que me abastece para o dia seguinte. Atualmente, não estou fazendo terapia por falta de tempo, mas até o ano passado fazia religiosamente minhas sessões. Daniela Bergamini
“Não é uma questão de tempo, e sim de prioridades e necessidades. O profissional que respeita sua profissão e busca a melhoria contínua faz terapia, busca supervisão de casos, participa de grupos de estudos, enfim busca se desenvolver como ser biológico, psicológico, social e espiritual (bio, psico, socio, espiritual).
Antes de sermos psicólogos, somos pessoas e os problemas são os de seres humanos, aliás costumo dizer que a terapia não resolve problemas mas, sim, ensina a lidar melhor com eles.
Existe várias formas para aliviar tensões, não só a terapia que deve buscar o autoconhecimento e a plenitude de sentido. Não podemos esquecer que a tensão é positiva quando ela nos movimenta e impulsiona para a busca, então devemos buscar a harmonia e não o equilíbrio. Para viver bem, digo sempre sim à vida, apesar das contrariedades, sorrio, amo, rezo, faço exercícios físicos e terapia, etc. Isto é um pouco da minha filosofia.” Sandra Pirola
“Claro que psicólogos vão a psicólogos!!! Por que estaríamos imunes ao mundo, à vida, enfim, a tudo???
Afinal de contas, devemos acreditar no ‘nosso próprio veneno’, não devemos? Fazer terapia, análise, para o clínico que se preze, é fundamental.
Eu já fiz várias vezes e sou ‘louquinha’ para fazer sempre, para me rever, buscar, compartilhar. Nosso interior, nossa interação com o mundo, a partir das nossas singularidades, é fascinante quando fotografada pela lente da análise!
Um analista ou um psicólogo clínico bem competente pessoal e profissionalmente faz uma séria diferença na vida da gente! Faz parte da formação do psicólogo clínico que ele seja analisado e constantemente supervisionado, isto é, se ele quiser ser um bom profissional. Ter enfrentado o seu próprio processo de individualização é condição ‘sine qua non’, para nós, analistas junguianos. Não se concebe você incentivar alguém a empreender uma busca interior, se você não acredita ou foge da sua. Soa falso e mecânico, e o profissional não vai longe. Vamos para a análise porque temos problemas iguais aos de todo mundo: temos filhos, maridos, amores, cheques especiais, contas a pagar, somos seres absolutamente normais. Não tomamos nenhuma vacina que nos imunize do mundo ao longo do curso.
Aliás, na minha opinião, que é a mesma do Jung (perceba a modéstia), quanto mais no mundo estivermos, melhor será a nossa condição de entender a alma humana. Dizia ele que só ‘a alma cura a alma’.
As nossas relações com nossos supervisores clínicos, estas sim, são para discutir a nossa prática, aliviar as tensões, enfim, melhorar e lapidar nosso lado profissional. Tem sempre alguém que sabe mais do que a gente e, olhando a nossa prática com outros olhos, pode nos auxiliar a perceber coisas e isto é terapêutico por si só.
Para equilibrar as nossas tensões, fazemos o que todo mundo faz: lemos, viajamos, ouvimos música, namoramos, depende do que cada pessoa gosta de fazer!
Eu gosto de ficar sempre um pouco sozinha. Preciso de algum tempo de solidão, eu comigo mesma e então recobro meu eixo. Faço isso diariamente!
Não sinto que as tensões de um psicólogo clínico sejam maiores ou menores que as de um cirurgião, um jornalista, um bancário. São tensões de naturezas diferentes, porém sempre tensões!” Regina Furigo