Despontava a década 90, mais precisamente uma manhã de janeiro. Tomávamos um cafezinho na estação rodoviária de Uberaba-MG quando outros viajores se aproximaram do balcão, aumentando o grupo dos que lá já se encontravam. E, em seguida, um deles se dirigiria a outro falando alguma coisa e pronunciando o seu nome: Sérgio. Não nos conhecíamos. Mas logo ficaríamos sabendo sua identidade completa: Sérgio Vieira de Mello. Quem seria ele? O que faria? De qualquer forma nos cumprimentamos com o clássico “bom dia”, gastamos alguns minutos com uma troca de palavras e pouco depois cada um tomou o seu rumo. A partir de então centenas e centenas de manhãs passaram por nós neste imenso mundo de Deus. E o destino faria com que não viéssemos a nos encontrar outra vez. Contudo, seu nome e sua personalidade não fizeram o mesmo, pois não desapareceram de nossa mente porque incidiram sobre alguém que, ainda que desconhecido, conquistava pela sua cultura e sua simpatia. Teria sido idêntica a sua impressão a nosso respeito? Não o sabemos porquanto não somos advinhos. Deus não nos presenteou com esse dom tão expressivo. Recentemente, porém, decorridos 13 anos, não voltamos a trombar com ele no balcão da rodoviária, mas, finalmente, viemos a ter notícia sua devido à sua nomeação para o importante cargo de ministro-chefe da missão de paz no Iraque. Toda a imprensa brasileira e mundial deu destaque à decisão da Organização das Nações Unidas e era natural que isso nos emocionasse porque aquele nosso contato de poucos minutos nas Alterosas fôra suficiente para que não viesse a ser absorvido pelo tempo. Mais algumas manhãs ocorreriam e, agora - infelizmente - outra notícia, a pior que poderia estar reservada a nós outros, veio a bater violentamente em nossa porta. Fôra o Vieira de Mello vítima de grave atentado em Bagdá e desaparecera para sempre dos amigos e admiradores, como nós, inclusive. Não resistimos à comoção e nos inspiramos à homenagem deste registro, que lhe endereçamos, onde quer que esteja, como singela oferenda à sua personalidade de homem justo, pacífico e inteligente, nada merecedor da tragédia que lhe reservaram os fatos, muitas vezes injustos até para com os bem intencionados como ele, que há anos estava aplicando sua cultura e seu destemor a serviço da harmonia internacional e vinha colhendo frutos elogiáveis. Como diz um analista, Vieira de Mello vai fazer muita falta no mundo para a reconciliação dos homens que aí estão desentendidos e desagregados. Parabéns ao Congresso Nacional que articula projeto de lei propondo o nome do excelso pacifista para o Prêmio Nobel da Paz. Quem mais que ele mereceria o máximo laurel? É a nossa opinião.
O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.