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Tristeza que a mata esconde


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Hermeticamente escondido nas respectivas matas, o seringueiro é o trabalhador que exerce sua profissão na maior solidão de quantos se têm conhecimento. Ressalvem-se, por exemplo, o madeireiro e o pescador como igualmente mourejadores de áreas marcadas pela intensa tristeza. Aquele, brigando com a teimosia das enormes florestas, querendo livrá-las de seus gorduchos arvoredos. Os outros, usando varas e anzóis ou redes de cordões na tentativa de subtrair dos mares e dos rios seus preciosos cardumes. Uns e outros, no entanto, lutam em meio a ambientes que diferem substancialmente daquele em que funcionam os seringueiros: homens, mulheres e até crianças que, em plena madrugada, quando os raios solares nem ameaçam pôr os olhos de fora, invadem seus redutos no Amazonas e no Acre e investem sobre os seringais para iniciar sua jornada de trabalho. Levam somente alguns instrumentos e a solidão. Mas não topam unicamente com os seringais de caras fechadas, pois vão também ao seu encontro feras, cobras, moscas e outros animais e insetos perniciosos. E o que fazem as famílias? Andam pela lama e capoeira, subindo em árvores, abrindo caminhos com seus facões e carregando o balde para coleta do leite que, ao final da tarde, é profusamente defumado, transformando-se em valiosa pele de borracha. Dor e lágrimas formam a comovente história do modesto seringueiro, iniciada na década de 40, durante a II Guerra Mundial, através da migração nordestina para a Amazônia e o Acre, quando se constituíu o falado “soldado da borracha”, e até hoje vivem esses homens sem rumo certo e quase sem alguma esperança, ainda que, fundamentalmente, a poderosa indústria da borracha esteja por aí superlotando todos os mercados com caríssimos produtos da espécie, entre eles pneumáticos e câmaras de ar que, atrelados a milhões de veículos, rodam dia e noite por uma infinidade de rodovias no mundo inteiro. E muitas outras manufaturas supervalorizadas têm os seus berços embrenhados no regaço dos seringais. Não obstante a extração que fazem da caríssima goma gerada no ventre das seringueiras, vivem seus extratores uma existência subumana, perdida nas margens dos rios Solimões, Jutaí, Juruá, Biá e Purus, conforme não conseguem esconder as notícias que a mídia recolhe por lá, ecoando os lamentos da melancolia daquela gente, que se alimenta à sombra do arvoredo ingerindo apenas um prato de feijão com farinha.

O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.

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