Economia & Negócios

Reajuste salarial em parcelas 'explode'

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 3 min

Um levantamento divulgado pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócioeconômicos (Dieese) na última semana mostra que houve uma “explosão” no número de reajustes salariais pagos em parcelas no primeiro semestre de 2003. De acordo com o órgão, entre 1997 e 2002 até 9% das reposições foram pagas desta maneira. Nos primeiros seis meses deste ano, o parcelamento ocorre em 33% dos casos.

Para o Dieese, a prática do parcelamento do reajuste acarreta um prolongamento da defasagem dos salários dos trabalhadores meses após a data-base das categorias. Isso quando a reposição não é insuficiente para compensar as perdas com a inflação.

Na opinião do economista Reinaldo César Cafeo, delegado do Conselho Regional de Economia (Corecon), apesar dos acordos desse tipo, em sua maioria, retroagirem à data-base, o trabalhador não recebe nenhuma compensação pelos meses em que ficou sem receber.

Para ele, essa é uma tendência típica de um quadro de desemprego alto e recessão. “Hoje, as categorias profissionais estão privilegiando mais o emprego do que a renda”, diz Cafeo. E completa: “Evidentemente, quando os sindicatos vão à mesa de negociação com todos esses indicadores negativos, o privilégio é conseguir fazer com que essa categoria fique empregada”.

O coordenador da Central Única dos Trabalhadores (CUT) de Bauru, Paulo Vieira Lima, afirma que a prática do parcelamento é “extremamente prejudicial” aos trabalhadores. “A CUT é totalmente contra o parcelamento”, declara. O argumento da central é o mesmo: o trabalhador permanece sem reajuste integral mesmo após sua data-base, ao passo que a renda é corroída pela inflação.

Para Lima, o fenômeno do parcelamento de reajustes salariais é mais uma questão que “emperra” as mesas de negociação e, em alguns casos, acaba levando o acordo à Justiça. “Eles (os sindicatos patronais) querem parcelar, mas nós não concordamos”, diz.

O dirigente do sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Bauru e Região, Cláudio da Silva Gomes, afirma que, apesar dos impasses nas negociações, a maioria das categorias representadas pelo sindicato tiveram seus reajustes parcelados.

Além disso, nenhuma delas recebeu reposição integral da inflação do período anterior à data-base. “O parcelamento causa um descompasso na vida do trabalhador, que fica dois, três meses recebendo menos do que foi acertado”, aponta o sindicalista.

Ainda segundo o economista Cafeo, as empresas estão deixando claro que preferem segurar reajustes maiores e optar por parcelamento durante esse “momento agudo” da economia do que demitir funcionários. Para ele, porém, o único setor que não pode alegar prejuízo é o dos bancos. “Eu avalio que um dos setores que têm condições de reposição pela inflação passada é o bancário”, afirma.

Diante disso, a posição do diretor do Sindicato dos Bancários de Bauru e Região Marcos Silvestre deixa claro que sua categoria não aceita parcelamento nem reposição inferior à inflação. “Nós queremos garantia de emprego e reajuste salarial”, diz.

Os bancários, cuja data-base é setembro, reivindicam reajuste de 21,58%. Na primeira rodada de negociações, os bancos ofereceram 9%. “Isso é uma provocação”, diz Silvestre. E observa: “O salário corre atrás da inflação, e não o contrário, como costuma se dizer.”

"Crise profunda"

Para sindicatos patronais, saídas como o parcelamento de reajustes são a única maneira de não causar ainda mais desemprego. Segundo o presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino de Bauru, Gérson Trevizani, o principal problema do setor é a inadimplência, que chega a 10% nos colégios e a 30% nas faculdades particulares. “O professor tem consciência hoje de que a escola não agüenta mais, há a consciência de que o setor vai mal”, afirma.

De acordo com o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil (SindusCon) de Bauru, Ralph Ribeiro Júnior, o setor passa por “crise profunda”, o que impede as empresas de reajustarem o reivindicado pelo trabalhador.

Ainda assim, Ribeiro Júnior coloca uma outra questão: as empresas que decidirem por parcelar o reajuste devem ter consciência de que terão um compromisso de aumento de despesas nos meses seguintes. “Mesmo que o reajuste seja parcelado, é preciso cumprir esse parcelamento”, aponta.

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