Pesca & Lazer

História de Pescador: Os pescadores beatos


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“Nos tempos em que as pessoas caçavam e pescavam sem restrições por falta de legislação sobre esses temas, um tal de Amador Kinoshita convidou os irmãos Rubens e Flávio, todos de Avaí, para uma caçada de capivaras. A aventura seria de rodada pelo rio Batalha à noite, a partir de um ponto determinado até onde conseguissem chegar na manhã seguinte, ou até o arroz secar, conforme falou o Amador.

O Rubens gostou muito do convite, mas logo lembrou-se do sermão que ouvira do pastor da sua igreja, justamente contra o costume, quase vício, de alguns em caçar animais silvestres, destruindo a fauna, etc., e, pensando no assunto, passou a responsabilidade da decisão para o mano velho Flávio que também estava com coceira no indicador de tanta vontade de dar uns tiros.

Amador e Rubens juntaram seus apetrechos e saíram para o rio sem esperar pelo Flávio que, pelo jeito, demorou para conseguir o competente alvará de soltura lá na sua casa e, quando o recebeu, saiu correndo atrás dos outros dois, mas já era tarde. Porém, ele não desistiu e foi esperá-los numa ponte velha mais abaixo do ponto de partida. Enquanto isso, os dois primeiros já desciam o rio sem saber que eram aguardados.

Durante o trajeto de descida, o Amador mudou de idéia e resolveu pescar, causando espanto ao Rubens que lembrou que não levavam nenhuma vara de pescaria e sim espingardas, cartuchos, farol e bateria no seu barco. Mas o Amador teimou:

— Encoste o bote ali naquela rede.

Aquela rede era do sitiante Gerson Mayer, conhecido de ambos, e o Rubens ficou bravo:

— O pastor disse que roubar é pecado.

— Depois você pede perdão para Nossa Senhora, respondeu o outro.

— Minha igreja não adota santa ou santo algum, continuou o Rubens.

— Não me enche o saco e ajuda aqui, concluiu.

A noite estava escura, a rede estava repleta de curimbatás, ninguém viu mesmo e foi assim que eles pescaram os peixes do Gerson, do Zequinha, dos Garcia, do Pimpão e, por último, ao lado da ponte velha, surrupiaram os peixes do Capitão, com rede e tudo, porém não sabiam que eram observados de cima da ponte velha, justamente por aquele que haviam deixado para trás.

Este, por sua vez, se fez passar por tenente da polícia florestal e iniciou grande falação lá do alto da ponte:

— Tem gente roubando redes; cerca eles sargento; chama o capitão; vamos prender os dois.

E assim, mudando sempre de lugar, ora da ponte, ora do barranco, ora trepado numa árvore, Flávio fez tanta gritaria que confundiu os dois “pescadores”, que julgaram haver um pelotão inteiro a cercá-los.

— E agora Amador, perguntou o Rubens.

— Pede socorro para Nossa Senhora, respondeu o companheiro.

— Eu já disse que sou crente e não acredito em Nossa Senhora.

— Então pede socorro para o Papa.

— Na minha igreja não tem Papa, só pastor.

Então toca esse barco bem depressa, senão seu pastor vai visitar você lá na cadeia. O Rubens remou o quanto pode, mas o medo era tão grande e tremia tanto que parecia um passarinho hipnotizado por uma cobra e até acabou encostando a sua embarcação bem aos pés daquele “tenente”, que falou o mais grosso que pôde, amedrontando-os ainda mais:

— Estão presos em nome da lei. Vocês são caçadores ou pescadores?

— Pois ói seu Comandante, respondeu o Amador, nós num semo nem uma coisa i nem outra, nós tamo dando só umas vortinhas, mais o moço aí ditraiu i robô as redis do seu capitão.

Naquele momento, o Rubens sentiu o mundo desabar na sua cabeça e até esqueceu-se da sua crença e falou:

— Minha Nossa Senhora Aparecida... e calou-se pois não sabia rezar.

Mas o Amador Kinoshita completou a reza:

— Rogai por nóis!”

Eurico de Oliveira é membro da Associação dos Pescadores de Avaí.

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