Se você pensa que qualquer veículo dotado com tração 4x2 ou 4x4 é capaz de superar os mais difíceis e variados obstáculos fora-de-estrada, prepare-se para rever seus conceitos sobre o assunto. Isso porque o simples fato de um automóvel contar com tais sistemas não é garantia de vida tranqüila em todo terreno, principalmente nos off-roads.
“O principal problema é que muitos proprietários de veículos equipados com esses componentes não sabem operá-los e nem os limites de sua utilização”, ressalta o mecânico bauruense Afonso Carlos Telles Nunes, um especialista em carros da linha 4x2 e 4x4.
“As pessoas os compram pensando tratar-se de verdadeiros tanques de guerra, capazes de enfrentar e passar por cima de tudo. Mas não é bem por aí”, acrescenta.
Afonso revela que semanalmente sua oficina recebe vários veículos com uma infinidade de problemas mecânicos causados pelo uso inadequado em situações fora-de-estrada. “Os motoristas têm de se conscientizar que há vários níveis da prática off-road, com diferentes graus de dificuldade que nem todos os automóveis 4x2 ou 4x4 podem suportar”, enfatiza ele.
O mecânico sustenta que somente os donos de veículos off-roads denominados “puro-sangues”, ou seja, projetados especialmente para as duras exigências fora-de-estrada, podem aventurar-se radicalmente em qualquer terreno sem preocuparem-se muito.
Nesta categoria enquadram-se jipes das linhas Willys, Defender, Troller e Toyota Bandeirante. “Esses sobem até em coqueiro”, brinca Afonso. “Mas também não é por isso que se deve abusar com eles”, completa o mecânico.
Os demais modelos, sejam eles caminhonetes ou os chamados SUVs (abreviatura, em inglês, para veículos todo terreno), traçados ou não, já exigem atenção especial na hora de tentar superar, por exemplo, os obstáculos de uma trilha, como erosões, alagados e buracos de todos os tipos.
O mecânico salienta ser preciso entender que determinados veículos são adequados para encarar apenas obstáculos eventuais. “Há vários modelos e marcas que possuem tecnologia moderníssima, capaz de fazer um motorista safar-se de um atoleiro, por exemplo. Entretanto, isso não quer dizer que eles tenham vocação off-road e possam enfrentá-los repetidamente sem problemas”, frisa.
E é justamente para evitá-los que ele considera a informação palavra-chave. O mecânico recomenda que, antes de adquirir qualquer modelo equipado com tração 4x2 ou 4x4 e ir logo aventurando-se em uma trilha, o consumidor deve avaliar como o veículo será utilizado. “Ninguém deve comprá-los por moda ou status, e sim tendo em mente quais serão suas finalidades”, pondera.
Além disso, o candidato a “off-roader” deve apurar junto ao local onde pretende fechar o negócio o maior número de informações possíveis sobre o veículo. “Também é recomendável procurar um amigo, parente ou profissional que entenda das características fora-de-estrada dos modelos”, orienta o mecânico.
Agindo desta maneira, complementa Afonso, tudo fica mais fácil e a probabilidade da ocorrência de problemas devido ao mau uso em condições off-roads diminui. “Há veículos 4x2 tão bons como os 4x4 para determinadas situações. Mas o sucesso na escolha do modelo dependerá da correta avaliação do comprador sobre onde ele será utilizado”, alerta.
Culpa das montadoras
O mecânico sustenta, ainda, que uma parcela de culpa pela utilização inadequada de tais veículos cabe às montadoras. Isso porque Afonso considera que os próprios vendedores de agências autorizadas deveriam orientar os consumidores sobre os limites off-roads de um automóvel. “Infelizmente, há carência de profissionais técnicos que expliquem onde o mesmo pode ou não ser usado”, afirma.
Para o mecânico, o ideal seria a existência de pelo menos um vendedor com tal característica em cada concessionária, iniciativa que, segundo Afonso, já é adotada pela Porsche e BMW. “Se as montadoras não quisessem contratar profissionais específicos, deveriam ao menos investir em treinamentos para capacitar os já existentes em suas fileiras”, defende.
Segundo Afonso, este é um dos principais caminhos para evitar não só o uso incorreto de veículos em condições fora-de-estrada, mas também o surgimento de clientes insatisfeitos. “Seria benéfico para as marcas, pois, devidamente orientados, os motoristas não se aventurariam onde o automóvel não aguenta e evitariam frustrações com seu desempenho. E freguês satisfeito é freguês fiel.”
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Adaptações
O mecânico Afonso Carlos Telles Nunes ressalta que, em 90% dos casos, não compensam as adaptações para tornar um veículo 4x2 em 4x4. “Por exigirem mudanças profundas no automóvel, é mais fácil comprar um com tração nas quatro rodas de uma vez”, salienta.
Como exemplo, ele cita uma hipotética transformação na Ford Ranger. Ele estima que, utilizando apenas componentes originais e de marcas conhecidas, “traçar” uma 4x2 em 4x4 custaria cerca de R$ 15 mil. “É quase metade do valor dela e, por isso, é inviável”, diz. “Mas a F1000 é um dos modelos em que as adaptações valem a pena ser executadas”, complementa.
Além disso, Afonso enfatiza que a opção pelos veículos 4x4, especialmente os “puro-sangues”, exige checagem da relação custo/benefício.
“Estes apresentam várias vantagens sobre os 4x2, como segurança mais reforçada, maior altura e conjunto mecânico superior. Entretanto, têm a desvantagem de possuírem maior peso, gastarem mais combustível, ter menor estabilidade em curvas e ser mais desconfortável”, finaliza.
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