Quem nunca escutou o ditado “quem casa quer casa”? A idéia de morar com esposa (ou marido) e filhos é a mais comum, mas nem sempre a mais viável devido à baixa renda de grande parte da população. Em muitos casos, a alternativa acaba sendo dividir o mesmo teto com sogros, pais, outros parentes e até amigos.
O valor do aluguel da casa ou da prestação de um imóvel no orçamento familiar tem peso bastante relevante. Para algumas famílias, gastos com moradia não cabem na renda mensal. Nestes casos, a solução é apelar. As pessoas apelam não só para casas de conhecidos, mas também para imóveis abandonados.
Em Bauru, a situação é freqüente. Luci Bernadete da Silva, por exemplo, mora com o marido em uma casa de três cômodos no Parque Santa Edwirges. O imóvel, previsto para o casal, ganhou mais sete habitantes: dois irmãos de Luci, uma sobrinha, uma filha e três netas.
Apenas duas pessoas estão empregadas e a manutenção da casa tornou-se difícil. Luci confessa que gostaria de morar apenas com o marido. “Não tenho muita paciência com criança. Se minha filha sai, ela tem que carregar as filhas porque eu não gosto de crianças. Prefiro ficar sozinha assistindo à televisão”, salienta.
Como a casa é pequena, a solução encontrada para que todos possam dormir foi jogar colchonetes no chão dos cômodos.
Na casa de Clarice Camargo, no Parque Jaraguá, o problema é semelhante. Ela mora com um casal de filhos, um genro, um casal de netos, uma prima e um irmão. Como na casa de Luci, todos dividem três cômodos.
“É muito apertado. Temos que morar assim porque não temos condições. A gente gostaria que cada um tivesse a sua casa”, expõe.
O agravante é que todos estão desempregados e o genro tenta ganhar algum dinheiro catando papel nas ruas. Outra preocupação de Clarice é que o terreno não está quitado e as prestações estão atrasadas. Ela tem medo de ser despejada porque não há outro parente para socorrer a família.
“A vida está difícil. Se a gente perder o terreno, para onde a gente vai?”, questiona.
Mais parentes
Ao chegar na casa de Maria Carmosina da Silva, no Parque Santa Edwirges, os varais repletos de roupas de todos os tamanhos já dão uma idéia da quantidade de pessoas que moram no local.
Maria vive nos fundos da casa em que o filho mora com a nora. Entre filhos, sobrinhos, netos e outros parentes, o imóvel abriga 16 pessoas.
“Temos que morar assim. Não tenho condições de comprar um terreno e construir uma casa. Onde meus filhos ficarem eu tenho que ficar”, explica Maria Carmosina.
A nora, Silvana Aparecida Azevedo, diz que “não tem nada a reclamar”, mas que gostaria de morar em uma casa mais tranqüila. “Cada um tem um jeito de se comportar em casa. Eu não gosto de quintal sujo. Eu limpo toda a parte da frente. Às vezes não varrem o fundo e eu fico brava”, expõe.
Roselaine Mirele Barbosa de Moraes, 19 anos, mora com duas filhas em um quarto da casa dos pais, no Parque Santa Edwirges. Separada do marido, ela não gosta da situação de dependente dos pais. “Agora quem sustenta minhas filhas e eu é meu pai porque ele (ex-marido) não ajuda em nada”, lamenta.
O pai é porteiro e o baixo salário sustenta, ainda, outra filha com mais uma neta e a esposa. Visando amenizar a situação, Roselaine está procurando emprego. “Eu fico com dó do meu pai porque ele tem que trabalhar para sustentar a gente e eu não arrumo serviço para ajudá-lo. Ele fala que nunca passou tanto aperto quanto hoje.”
Há pouco tempo, o tio de Roselaine, também desempregado, passou cinco meses na mesma casa. A irmã, que havia saído para morar com o namorado, voltou para a casa dos pais.
“Eu gostaria de morar em outro lugar. Por qualquer discussão minha com meu pai, ele pode me mandar embora. Eu só não saí daqui até hoje porque eu não tenho para onde ir”, salienta Roselaine.