Bairros

Falta privacidade em casas lotadas

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

A falta de privacidade das pessoas que moram de favor em uma casa cheia de parentes é apontada como um dos principais aspectos negativos de dividir o mesmo teto com toda a família.

O cabeleireiro Elias Salomão Filho mudou-se recentemente para a casa sogra, onde também mora a esposa. “Eu acho legal estar em família, mas atrapalha um pouco a privacidade. A gente tem um ritmo diferente de vida”, observa.

Embora não se sinta completamente à vontade na casa da sogra, diz que tem um bom relacionamento com a dona da casa. “Eu não tenho o que reclamar da minha sogra. Só tenho a agradecer porque ela está sendo minha mãe em Bauru. Ela se preocupa muito comigo”, afirma.

Como a maioria dos casais que ainda não têm paradeiro certo, Elias e a esposa Telma Lobato têm planos de mudanças. “Quando as coisas melhorarem um pouco para a gente, a intenção é ter uma casa só para nós”, frisa.

Telma conta que voltou para a casa da mãe, na Vila Cardia, por opção. Morou sozinha durante quatro anos e quando o pai faleceu decidiu fazer companhia para a viúva.

Além da companhia, dividir a moradia com a mãe é uma alternativa para contenção de despesas porque desta forma ela evita o pagamento de aluguel.

“É um pouco difícil para o casal pela falta de privacidade. Tem determinados horários a respeitar e a mãe acaba sempre se intrometendo. Não porque quer atrapalhar. Ela quer ajudar, mas cada um tem uma visão de mundo. Cada um pensa de uma forma”, explica Telma.

O jornalista Reinaldo Chaves mora com os pais em uma casa no Jardim Bela Vista, mas não por opção. Desempregado, ele tentou emprego no Rio de Janeiro, mas acabou voltando com a esposa e a filha para Bauru. Além do pai e da irmã, ele convive na mesma casa com a irmã. “Tínhamos um local para ficar por algum tempo no Rio, mas não consegui emprego”, diz.

Segundo Reinaldo, os pais gostaram de voltar a ter o filho por perto. “Ao mesmo tempo que eles gostam, eles queriam que nós estivéssemos empregados. Estudamos um tempão e não achar emprego é frustrante”, conta.

Na opinião do recém-formado, é bom morar perto da família, mas não na mesma casa. “A gente quer ter nossa vida, nossos sonhos, nossas idéias. Eles têm os projetos deles, os pontos de vista mais conservadores”, expõe.

“Assim que a gente arrumar um emprego, a gente vai ter o nosso canto”, frisa.

A situação incomoda Reinaldo. Ele cita como exemplo o banheiro, que está sempre ocupado devido à grande quantidade de moradores.

“Às vezes a gente quer comprar uma coisa só para a gente, mas nunca podemos pensar assim. Temos sempre que pensar coletivamente, em todas as pessoas que estão aqui”, avalia.

Paciência é essencial. A esposa de Reinaldo é espírita e a mãe é evangélica. As duas têm que controlar as divergências referentes às religiões.

Reinaldo conta que dorme na sala com a esposa. “Não tenho mais um canto para eu ler ou estudar”, lamenta.

A casa de Marcos Bueno Antônio é outro exemplo de convivência entre muitos parentes. Ele mora no Parque Jaraguá com a mãe, dois irmãos, cunhado, esposa, filha e quatro sobrinhos.

Marcos está desempregado e conta que gostaria de morar só com a esposa e a filha. “Quando a gente assume uma família a gente tem que ter nossa própria casa”, acredita.

Por morar de favor e não poder colaborar com os gastos da casa, Marcos sente-se constrangido. “Eu já casei. Minha obrigação era ter meu próprio lar. Difícil é, mas dá para ir levando. Possibilidade de emprego em Bauru está difícil”, expõe.

O irmão solteiro, Anderson Bueno Antônio, conta que pequenas desavenças são comuns na casa. “Às vezes acontece um desentendimento, mas tudo bem. Depois volta ao normal. São coisas simples”, garante.

Paciência para viver em harmonia com a família é fundamental, na opinião de Anderson, que pensa em morar sozinho.

“Prefiro ficar só. Se eu quero meditar, ler um livro, o barulho atrapalha. Não tem como aprender e prestar atenção no que você está fazendo. É complicado. É preciso ter uma mente estruturada.”

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Outros casos

Existem em Bauru outros casos semelhantes de famílias que arrumaram alternativa porque não tinham um imóvel próprio para morar.

Na favela do Jardim Nicéia, por exemplo, moradores de 150 lotes protocolaram no Fórum de Bauru uma ação para conseguir a posse definitiva dos imóveis, por usucapião coletivo.

O instrumento é previsto na lei 10.253, de 2001, que ficou conhecida como Estatuto da Cidade. A lei define a função social da propriedade. Os ocupantes que residem em seus imóveis há mais de cinco anos sem contestação por parte de seus proprietários têm o direito de reivindicar a propriedade através do usucapião.

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